PARÓQUIA SANTA CÂNDIDA 

Mensagens do Pároco



PREPARAI O CAMINHO PARA O SENHOR.

João Batista foi escolhido por Deus para ser esta voz que grita no deserto, pedindo a conversão, porque o Messias, o Salvador está chegando. Muitos vão até ele, para escutá-lo e colocam-se abertos para a mudança, para uma vida nova, a fim de viverem plenamente a chegada do Filho de Deus. Com voz forte, por vezes dura e até ríspida, usando roupas simples e rústicas, ele prega e anuncia a chegada do Senhor. Desperta tanta curiosidade e encanto em muitos, a ponto de acharem que ele seria o Messias esperado. E ele responde dizendo que não é digno nem de desamarrar a correia das suas sandálias. Ele tem plena consciência da sua grande missão, como aquele que prepara o caminho, mas que não é o caminho.

Seguindo o exemplo deste grande profeta, hoje nós somos chamados a preparar o caminho para a chegada do Salvador. Como todos os anos, novamente ele está chegando para transformar as nossas vidas e ser uma luz em nossa caminhada. Como cristãos, o nosso modo de preparar-nos para o Natal, é muito diferente daqueles que não acreditam em Deus. Para aqueles, este período assume um tom mais material, com cara de papai Noel, muito mais preocupados com as vendas do que com o coração. Natal bom para estes, é aquele que vende bem, não importando se houve ou não mudança na vida das pessoas.

Preparar o caminho para a vinda do Senhor é também, a exemplo do Batista, ir para o deserto e deixar-se moldar interiormente. Deserto é o lugar do encontro com Deus, do silêncio, da conversa com o divino, numa atitude de abertura e de conversão. O bom cristão é aquele que se pergunta no que deve ser melhor, o que deve mudar em sua vida, o que fará para ajudar o mundo a ser irmão. Por vezes, dada a indiferença dos cristãos com o sofrimento do outro, parece que não encontramos diferença entre quem crê e quem não crê em Deus.

Muito mais do que meramente práticas religiosas, ritos e usanças, o cristão se prepara para o Natal, abrindo o seu coração a uma transformação interior. Isto se dá através do silêncio onde a oração atinge o seu ápice, mas que não se fecha apenas em gestos externos, mas se faz perceber num amor intenso para com aquele que mais necessita. A mudança de vida requer este gesto de caridade, de ajuda, de preocupação com aquele que sofre, seja material ou espiritualmente. No terceiro domingo do advento, os cristãos são convidados, através de um gesto concreto, ajudar na campanha da evangelização. Este dinheiro arrecadado irá para lugares onde a missão tem dificuldades de acontecer, por falta de recursos materiais.

Preparar a vinda do Salvador, é sair da indiferença, do comodismo, do individualismo, do egoísmo, de pensar somente em si mesmo e nas suas vantagens, para colocar-se aberto às necessidades do irmão. Pode ser uma cesta básica, uma oferta generosa em prol da evangelização, ou então, uma visita a um asilo, a um lugar onde se encontram irmãos abandonados e excluídos da sociedade. Requer então uma transformação interior que se manifesta numa ação social.

Talvez, como nunca em outros tempos, dado o agito exterior, a correria desenfreada, a preocupação exagerada com os problemas do dia a dia, precisamos ir para o deserto. E isto quer dizer silenciar, parar, rezar, deixar-se moldar pelo amor de Deus. Uma oração quando vivida de modo profundo e verdadeiro, nos levará ao outro, ao mais necessitado, como gesto de amor, carinho, ternura e solidariedade. Preparai o caminho do Senhor. Ele está chegando.

Padre André Marmilicz

VIGIAI!

O escritor polonês, sociólogo, Zigmund Bauman define esta sociedade atual como líquida, onde tudo se dissolve facilmente e nada permanece sólido e consistente. A grande preocupação do homem pós-moderno, segundo este autor, é com o momento presente, com o aqui, o agora, o já, sem grandes preocupações com o futuro. É preciso desfrutar ao máximo o momento atual, seja no mundo das relações pessoais, assim como na relação com as coisas materiais. É um mundo hedonista e profundamente pragmático, onde é importante aquilo que é útil no momento, mesmo que facilmente descartável. Até no mundo relacional, esta máxima aparece de modo selvagem, ou seja, uso o outro para satisfazer-me momentaneamente e logo em seguida o descarto, e jogo fora.

Este modo de ser e agir do ser humano criou dentro dele um enorme vazio, a falta de sentido e significado de uma existência mais comprometida e pautada por ideais. Se fossemos pedir para um jovem desenvolver um projeto de vida, certamente encontraríamos na maioria deles um ideal muito limitado, capaz de ser resumido em poucas palavras, e todo ele fixado no prazer imediato e na satisfação momentânea. Não é raro encontrarmos jovens totalmente indiferentes com aquilo que poderá advir no seu futuro. Isso é realmente preocupante, colocando em risco o compromisso por um mundo melhor, mais justo e mais humano.

Dentro deste cenário, podemos ser levados por um desânimo coletivo, por uma letargia e falta de empenho, como se este mundo não tivesse mais solução. Este é, com certeza, o perigo que envolve as nossas mentes, tantas vezes descrentes de uma sociedade melhor. E talvez por isso, a indiferença torna-se a marca de tantos que navegam de modo frio e distante no meio desta sociedade. Aqui e acolá surgem os profetas da desgraça, semeando nos corações humanos, uma descrença na possibilidade de mundo mais habitável e confiável para as futuras gerações. As noticias que falam de tragédia, de desgraça, de destruição, parece que ocupam o espaço da comunicação e são elas que mais atraem o público de modo geral. Falar de esperança neste contexto é causa de riso e de deboche.

No entanto, para nós cristãos, a esperança deveria ser a marca registrada. O Deus da vida veio ao mundo, para trazer a todos a certeza de que as coisas podem ser diferentes. O papa Francisco nos convoca a sermos profetas da esperança, a lutarmos contra a corrente, desafiando os profetas da desgraça, que semeiam cizânia e desespero nos corações humanos. A sermos sinais de um mundo melhor, através de pequenos gestos de amor, de solidariedade e de fraternidade. Contra o mau humor e todo este desencanto que acompanha tantas pessoas privas de fé e de esperança.

Tempo de advento é este período em que a esperança se renova, porque o menino Deus vem novamente despertar em cada um de nós a certeza de que podemos construir um mundo melhor. Mesmo que cercados por valores passageiros, líquidos, a vinda do Salvador nos remete a princípios sólidos, perenes e eternos. Devemos acreditar nisso, e isto significa, vigiar para não nos deixarmos levar pela onda que assola a nossa humanidade. Os princípios evangélicos permanecem como a luz que deve guiar nossos passos, no caminho que conduz para a verdadeira felicidade. Por mais que o mundo tente abafar a presença da luz, que se chama Jesus sejamos nós sinais da sua presença, vivenciando aquilo que o Menino Deus semeou neste mundo, através de suas palavras, gestos e ações.

Padre André Marmilicz

EU VIM PARA SERVIR!

O maior homem da história da humanidade, Jesus de Nazaré, nos ensinou que a razão de nossa passagem neste mundo é servir aos irmãos. Ele mesmo afirma: ‘eu vim para servir e não para ser servido’. Toda sua vida foi uma prova desta grande sua afirmação, através de suas palavras, gestos e ações. Foi uma vida plenamente dedicada em prol do outro, de modo especial, do outro mais pobre, carente, necessitado e excluído da sociedade do seu tempo. Prova de amor maior não há, do que dar a vida pelos irmãos, é isto que nos ensina o homem de Nazaré.

Quem ama, serve e se doa e se entrega e se sacrifica pelo próximo. O verdadeiro amor não se fecha em si mesmo, em suas próprias vontades, mas se abre às necessidades do outro. Deixa o seu ‘eu’ em segundo plano, para dedicar-se ao irmão que está ao seu lado. Quando alguém faz tudo pensando em si mesmo, jamais compreenderá a lição deixada pelo mestre dos mestres. A oração, quando voltada somente para responder às suas próprias dores, sofrimentos, com certeza é ouvida por Deus, mas aquela que lhe agrada de verdade é a súplica em prol do irmão que sofre e do abandonado, do pobre e marginalizado.

Servir não é apenas uma possibilidade para aquele que segue o Filho de Deus, é simplesmente uma condição inerente à sua missão neste mundo. Quem não entender e não viver esta máxima, não terá entendido os ditames propostos por Jesus no evangelho. É contraditório para alguém dizer que ama a Jesus, fechando-se em si mesmo, no seu próprio mundo, ou pior ainda, desejando o mal ao próximo. Quem encontra Jesus em sua vida, naturalmente entendeu que o encontro com ele o leva a amar mais intensamente o próximo, a dedicar-lhe o tempo necessário, sempre pensando no seu bem e na sua felicidade.

A plena realização do ser humano neste mundo passa naturalmente pelo serviço alegre e gratuito em prol daquela pessoa mais sofrida e mais carente. Quando provamos a alegria do serviço, do bem em prol do nosso irmão, descobrimos então o verdadeiro sentido da nossa existência. O próprio Jesus vai afirmar no evangelho, que depois de termos feito tudo, só nos resta dizer: ‘fomos servos inúteis; fizemos apenas o que deveríamos ter feito’. Inútil neste contexto não quer dizer imprestável, desnecessário, mas alguém que descobriu que a condição para a sua felicidade é servir e não ser servido. São Paulo vai enaltecer esta verdade, quando proclama que ‘há muito mais alegria em dar do que em receber’.

Na medida em que eu faço o bem, sem importar para quem, percebo que o primeiro a ganhar com isso, sou eu mesmo. Como é bom ajudar alguém a ser melhor, a ser mais gente, mesmo que seja através de um sorriso, de um abraço, de um olhar ou de uma palavra de conforto. Não é quantidade de coisas que vai demonstrar o nosso amor ou ternura para com o outro, mas sim, a qualidade, ou seja, o modo como fazemos aquilo que fazemos. Podemos fazer muitas coisas, mas com interesse, vanglória, o que certamente não nos realiza na nossa missão. Mas quando fazemos na gratuidade, com alegria de coração, o gesto, ou o ato em si, já é a recompensa da nossa ação.

Passe pela vida deixando marcas de amor por onde você passar. Servir é a razão da nossa existência, e é isto que nos tornará plenamente
felizes e realizados neste mundo. Que a mão direita não saiba o que a esquerda fez, como disse o próprio Jesus no evangelho.

Padre André Marmilicz

DEUS CAPACITA OS ESCOLHIDOS.

Tenho comigo esta convicção, de que Deus nos criou para sermos felizes e nos realizarmos plenamente como seres humanos. Para tanto, ele confiou a cada um de nós uma série de talentos, de dons, de potencialidades. Somos diferentes, com possibilidades diferenciadas, e isso torna o mundo melhor. Seria muito chato viver num mundo onde todos fossem iguais, tivessem os mesmos gostos, as mesmas aptidões, os mesmos dons e as mesmas capacidades. Graças ao bom Deus somos diferentes, e o diferente, longe de ser um problema, é algo que cria alternativas saudáveis na construção de um mundo melhor. Alguém que sabe aquilo que eu não sei, que tem facilidade para aquilo que eu não tenho, que gosta de algo que eu não gosto, realmente, é uma dádiva de Deus para a humanidade.

Jesus, numa de suas belas histórias, conta a história dos talentos. Um senhor viajou para longe e confiou cinco talentos para um empregado, dois para outro e um para o terceiro. Quando voltou, pediu contas dos talentos confiados aos empregados. O que recebeu cinco rendeu outros cinco; o que recebeu dois rendeu outros dois e o que recebeu um rendeu nada, porque enterrou o talento por medo do patrão. Este então elogiou o primeiro e lhe confiou outros talentos e o mesmo aconteceu com o segundo. Com o terceiro, pelo contrário, pediu que lhe fosse tirado este talento e entregue a quem tinha mais. Além disso, ficou muito revoltado com aquele que escondeu o seu talento e mandou que fosse jogado no fogo do inferno. A sua ira se manifestou de modo quase que desproporcional.

Este empregado é cada um de nós, a quem Deus confiou uma série de dons e talentos, e pediu que desenvolvêssemos para colocarmos a serviço da comunidade. Em nome da humildade, muitos negam os valores que têm se colocam numa atitude de coitados, e tantas vezes, chamando aqueles que os colocam a serviço dos outros, como pessoas que fazem isso apenas para aparecer-se. Triste constatação, mas é em tantos lugares a pura verdade. Negam o que são e ainda criticam aqueles que se doam pela comunidade.

Todos nós fomos agraciados por Deus com uma série de potencialidades, e devemos fazer de tudo para desenvolvê-las, oferecendo o melhor na construção do Reino de Deus. Tem uma frase que resume isso no meio católico: ‘Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos’. Através de diversos modos podemos desenvolver os dons que Deus nos concedeu, colocando todo o nosso potencial na construção de um mundo melhor. Todos nós temos uma missão a cumprir neste planeta, e se nós não a realizarmos, ficará um vazio. Ninguém pode fazer a parte que me cabe, pois ela foi confiada a mim e deve ser desenvolvida por mim.

Encanto-me pela juventude que se abre à ação de Deus em suas vidas, colocando o melhor que existe nelas, a serviço da construção de uma sociedade mais fraterna. Como é bom ver jovens animados, entusiasmados pelo evangelho de Jesus Cristo. São vibrantes, entusiasmados, cheios de sonhos e de ideais. Vale para eles aquela máxima: ‘aqui tem jovem, aqui tem fogo’. É triste ver tantos jovens perdidos nas drogas, no mundo do vício, fechados em seu próprio mundo, sem projetos para a sua vida. Vivem como se não vivessem e isso causa neles uma tristeza imensa e um vazio muito grande. Quando colocam o melhor da sua juventude para a comunidade, se vê neles um brilho, um encanto, uma alegria pela vida. É isto que Jesus pede aos jovens e a cada um de nós: desenvolver os nossos talentos, e coloca-los a serviço da Igreja e de uma sociedade mais humana, fraterna e justa.

Padre André Marmilicz

A SUBLIME ARTE DE VIVER.

O cotidiano de nossa vida é feito de tantos momentos agradáveis, especiais, inesquecíveis, de rosas e flores, mas também, de situações adversas, sofridas, dolorosas, espinhos e agruras. Saber viver é realmente uma arte, nem sempre tão fácil de ser compreendida devido às inúmeras situações inesperadas que a vida nos reserva. Talvez fomos educados para o sucesso, como se tudo aquilo que quiséssemos, surgisse em nossa frente como que num toque de mágica. E na verdade, não é bem assim. As realidades frustrantes, decepcionantes, são também parte integrante da nossa existência. E como enfrenta-las? Como dar a volta por cima frente a realidades adversas, como uma doença, a perda de um emprego, a separação, a morte de alguém muito amado, as dívidas impagáveis? São apenas algumas das situações difíceis que surgem de modo inesperado em nossa vida.

Não existe uma fórmula mágica para resolver as situações conflitantes da nossa vida. E a resposta depende da nossa atitude pessoal, embora muitos queiram transferir a sua responsabilidade para Jesus, como se ele fosse um mágico. Fico indignado com frases como esta: ‘coloque tudo nas mãos de Jesus e ele vai resolver o seu problema’. Que ledo engano, pois ele mesmo sempre afirma, após uma cura, ‘a tua fé te salvou’. Ele deixa claro que a ação humana é fundamental para que um problema seja resolvido. Tantos deixam de fazer a sua parte, creditando tudo a Jesus, e quando o problema não se resolve, acham que ele os abandonou. Já ouvi frases como essa: ‘quanto mais rezo, pior fica’. É verdade, quando não nos ajudamos, Deus não pode fazer nada.

Quando eu estudava teologia, aprendi uma frase que para sempre me acompanha ao longo da minha vida: ‘ a graça pressupõe a natureza’. Ou seja, a ação divina, necessita da ajuda humana. Jesus não foi um milagreiro que resolvia os problemas de todo mundo, pelo contrário, ele sempre colocou em ação a responsabilidade humana na solução de um problema. Um grande professor, nos meus tempos de Roma, costumava dizer: ‘Deus faz sempre o seu 100%; nós, nem sempre’. Ou seja, a solução de um problema chama em causa o nosso esforço, a nossa determinação, como dizia São Vicente de Paulo, ‘com a força dos braços e o suor do rosto’.

Deus nos deu algo que nos diferencia dos animais: a capacidade de pensar, analisar, refletir e buscar a solução dos problemas. Esse é o nosso grande diferencial, que nem sempre usamos de modo correto e adequado. A nossa mente é um fator determinante na condução correta de nossa vida, e quando ela é ativada, buscamos pensar antes de tomar qualquer decisão. Quando somos movidos puramente pela emoção, acabamos tomando decisões conturbadas, desintegradas e que podem nos conduzir ao precipício. A emoção dissociada da razão costuma criar dramas desnecessários, brigas infindáveis, situações tantas vezes irreversíveis. Percebo que damos muita razão para a emoção, como se ela fosse o fator determinante da nossa existência. Ela tem, sim, seu grande papel, mas ela deve obedecer as indicações oferecidas pela razão, do contrário, ela poderá criar um verdadeiro caos.

Na sublime arte de viver, somos eternos aprendizes. Diariamente nos deparamos com situações que pedem de nós uma resposta adequada e equilibrada. Nem sempre conseguimos administrar de modo saudável a nossa vida. Ela pede sabedoria e isso quer dizer, usar a nossa mente, e não sermos levados apenas pela emoção. Este equilíbrio é fundamental.

Padre André Marmilicz

SAUDADES ETERNAS.

SAUDADES ETERNAS.

Saudade é um sentimento profundo que existe e se manifesta por aquelas pessoas que queremos bem, que amamos e que se encontram distante dos nossos olhos. Pode ser uma distância momentânea e que será plenamente superada quando tivermos a alegria e o prazer de nos reencontrarmos. É tão bom ouvirmos, no meio de um abraço sincero, palavras como estas: ‘que saudades de você’; ‘que falta que você faz’; ‘volte logo’; ‘não demore tanto tempo para nos visitar’. Essa manifestação carinhosa preenche o nosso ser e eleva a nossa alma. É prova de amor, de carinho, de um bem querer que brota de dentro e nos faz um bem enorme. Precisamos destes momentos, destas provas, porque elas nos renovam interiormente e nos fazem perceber a nossa importância neste mundo. Como é bom saber que alguém tem saudades de você; como é bom sentir saudades de alguém.

No entanto, existem pessoas queridas, amadas, que nunca mais poderemos tocar, abraçar, conversar, trocar algumas ideias, porque partiram desta vida. Dói imensamente saber que nunca mais poderemos sentir a sua presença agradável, desfrutar do seu sorriso, do seu abraço e da sua companhia prazerosa e encantadora. Sofremos para aceitar esta dura realidade, e por vezes até sonhamos com a sua presença, mas quando acordamos, percebemos que tudo não passou de um sonho apenas. Pessoas significativas e que partiram de modo inesperado, provocado por um acidente, uma tragédia, um ataque fulminante, dificilmente sairão de nossa memória. Serão para sempre lembradas, com muita dor na alma, sobretudo no dia da sua morte, ou então, no dia dos finados.

O que podemos fazer por um ente querido que nos deixou para sempre, voltando para a casa do Pai? Qual o gesto amoroso que poderá ser significativo para ele? Para nós, católicos, a maior prova de amor por alguém muito querido, é a nossa oração pelo seu descanso eterno. Acreditamos na importância de rezarmos pelas almas, para que sejam purificadas de todos os pecados cometidos nesta vida, e alcancem a glória eterna. Rezar é muito importante, através de uma novena, ou mesmo, um Pai Nosso ou uma Ave Maria todos os dias de nossa vida. E neste dia dos finados, somos convidados a participar da missa e colocar a intenção pelo nosso ente querido. Além disso, visita-lo no cemitério e levar flores, como sinal de amor e de carinho. Isso não vai preencher o vazio que sentimos pela sua ausência, mas vai amenizar um pouco a dor da perda e da separação.

As saudades de alguém que nos deixou, são eternas, porque nunca mais nesta vida poderemos desfrutar da sua presença. Sabemos que um dia nos encontraremos todos juntos na casa do Pai, onde poderemos dar glórias a Deus eternamente. Diante desta realidade eminente da morte, nada melhor do que manifestar nesta vida a nossa estima e o nosso amor para com aqueles que convivem conosco, especialmente, nossos familiares. Tantas vezes perdemos a oportunidade de manifestarmos o nosso apreço para com alguém, que de repente nos deixa, e provoca em nós uma culpa irreparável.

Neste dia em que nos lembramos daqueles que nos precederam na casa do Pai, vamos expressar nosso gesto de amor e de carinho por eles, visitando-os no campo santo, levando o nosso carinho materializado em flores. Aproveitemos para expressar o amor para com aqueles que conosco convivem, porque não sabemos nem o dia e nem a hora. Estejamos preparados, tanto para aceitarmos a partida de quem amamos, ou então, a nossa volta para a casa do Pai.

Padre André Marmilicz

O AMOR, A ÚNICA LEI.

O AMOR, A ÚNICA LEI.

Os rabinos do tempo de Jesus, estudando a Bíblia, tinham chegado a compor uma lista dos mandamentos nela contidos. Ensinavam que o conjunto dos preceitos era de 613. Desses, 365 (como os dias do ano) eram proibições e 248 (como os membros do corpo), eram ações a serem cumpridas. As mulheres tinham sorte, porque eram obrigadas a observar somente as proibições. Os guias religiosos de Israel ensinavam que todos estes mandamentos tinham a mesma importância e eram igualmente obrigatórios; discutia-se, porém, qual fosse o primeiro e o maior de todos. A opinião comum era que o preceito do sábado valia mais do que todos os outros juntos. Havia também quem colocasse em primeiro lugar o amor a Deus e ao próximo, ou, somente ao próximo. Todavia, por ‘próximo’ entendia-se somente os membros do seu próprio povo.

Encontramos diversas passagens na Bíblia nas quais Jesus pratica o bem no dia do sábado, deixando os guias religiosos muito furiosos. Por vezes, parece que ele agia assim de propósito, mas com certeza, com o único objetivo de mostrar que o ser humano está acima da lei. Quando a lei não favorece a pessoa, ela não tem razão de existir. Esta era a ótica de Jesus, preocupado com o bem estar do individuo, a ponto de dizer: ‘o homem não foi feito para o sábado, mas o sábado foi feito para o homem’. Se esta lei não favorece a sua plena realização, ela deve ser abolida. Estas posições de Jesus mexiam com os fariseus e os guias religiosos, e foi uma das razões da sua condenação, acusando-o de ser um infrator da lei.

A grande preocupação de Jesus é com a realização plena e a felicidade de cada pessoa. Para ele, a justiça e a misericórdia estão acima do sacrifício, de toda forma de cumprimento da lei pela lei, simplesmente porque está escrito no papel. Não é que ele condene a doutrina, as normas, os preceitos, os sacrifícios, mas se elas não levarem ao amor, sobretudo, para com aqueles mais frágeis e necessitados, elas não tem razão de existir. Jesus é um apaixonado pelo ser humano, e quer que ele viva plenamente. Quando existe uma lei que o sufoca, que o limita na sua liberdade, na sua plena realização, ele tira a sua força e a sua validade. A lei pela lei, que não ajuda no crescimento da pessoa, não tem razão de existir.

Existe somente uma lei, para a qual Jesus dedica todo o tempo da sua vida, a defende de corpo e alma: o amor a Deus e o amor aos irmãos. O amor é a base de tudo, é a lei que resume tudo. Podemos fazer tudo, dizia São Paulo, falar línguas, conhecer todas as ciências, mas se não tivermos amor, somos como um címbalo que toca. Ou seja, estamos vazios do sentido e da razão profunda da nossa existência. O amor, entendido como caridade, como doação, como entrega, e não apenas como um sentimento passageiro.

Nós amamos a Deus quando nos mantemos numa religiosa escuta da sua Palavra e vivemos como ele indica. Os momentos de oração se destinam a dar alguma coisa para Deus, mas para manter-nos na disposição de cumprir a sua vontade. Para amar a Deus é preciso prestar atenção e ter disponibilidade para responder em quaisquer circunstâncias às necessidades do irmão. Isto é mais importante do que o cumprimento de qualquer lei. Podemos amar a Deus, somente quando amamos o homem, o nosso irmão. Quem diz que ama a Deus e odeia o seu irmão, é um mentiroso, afirmava o próprio Jesus. Se cumprirmos todas as leis da Igreja, todos os seus preceitos, mas não amarmos o nosso irmão, não teremos entendido aquilo que é a essência de toda lei: o amor a Deus e o amor aos irmãos.

Padre André Marmilicz.
Padre André

A DEUS O QUE É DE DEUS.

A DEUS O QUE É DE DEUS.

Com a intenção clara de pegar Jesus em alguma contradição, a fim de condená-lo, os discípulos dos fariseus lhe fazem uma pergunta muito provocativa: ‘é lícito pagar o tributo a Cesar ou não?’ Se Jesus respondesse que sim, ele estaria indo contra o povo, já tão cansado e explorado pelos altos impostos pagos ao império romano; se dissesse que não, iria contra Cesar, considerado um deus pelo poder que exerce, e isto poderia lhe causar a condenação. De uma maneira muito inteligente, Jesus responde: ‘dai a Cesar o que de Cesar e a Deus o que é de Deus’. A princípio nós podemos imaginar que com isso Jesus quis dividir os dois poderes: de um lado o poder politico e social e de outro, o poder religioso. Como se a religião tivesse que permanecer dentro do templo, fechada entre quatro paredes, e a politica tivesse que decidir como melhor lhe conviesse, a questão social. Nada mais errado na interpretação daquilo que Jesus responde para os discípulos dos fariseus.

Jesus não nega a necessidade de pagar os impostos. Ele sabe perfeitamente que são eles que movem os povos e todos os sistemas políticos. Sem imposto é impossível que haja melhorias para o povo. E é exatamente ali que está o nó da questão. Dar a Cesar é não negar o imposto, mas dar a Deus o que é de Deus é não escravizar e explorar aquilo que é o mais sagrado para ele: o ser humano, sobretudo os mais pobres e necessitados. Em outras palavras, o imposto não pode ser usado para dominar, mas deve ser devolvido em prol do povo. E isto não acontecia no tempo de Jesus. O povo pagava impostos altos para Cesar, ou seja, para a manutenção do império romano, mas era totalmente explorado, sem direitos e sem as mínimas condições de uma vida digna. Jesus, com esta resposta, se coloca totalmente contra a exploração, o uso de modo indevido do imposto pago pelo pobre povo de Israel.

A realidade de hoje não é diferente daquela vivida no tempo de Jesus. Também no mundo atual, todos os cidadãos pagam altos impostos para manter a máquina estatal. Ninguém é contra o pagamento das taxas, o problema é que elas são demasiado altas, e geralmente, não retornam para o bem do povo. Se uma empresa sonega os impostos, ou se algum cidadão também não declara a sua renda, é passível de multa e até de prisão. Mas é triste constatar que estes encargos tão altos, são desviados para interesses da máquina estatal e são usados de modo indevido e arbitrário por aqueles que governam o nosso país.

Dar a Deus o que é de Deus, é devolver de modo honesto para o seu povo, para as pessoas criadas à sua imagem e semelhança, os impostos pagos com tanto sacrifício. Ou seja, é preocupar-se com o bem estar do povo de Deus, através de uma saúde de qualidade, de uma educação gratuita para todos, da construção de estradas, enfim, atender às necessidades básicas do cidadão. Quando alguém é explorado, o próprio Deus sofre porque cada um de nós é seu filho. E como um bom pai, ele quer o bem dos seus filhos e quer a sua plena felicidade.

Nós não podemos aceitar tanta exploração, tanto desvio, tanta corrupção no meio do nosso país. O imposto é licito, é necessário, mas o que não é admissível o mau uso dele por aqueles que governam o nosso país. Falta saúde para o nosso povo; aquilo que é do governo anda quebrado e sucateado, não por falta de verbas, mas porque elas são desviadas para interesses que não são aqueles do povo. Falta educação e o básico para as escolas públicas do nosso país. Por isso é que nós, a exemplo de Jesus, queremos afirmar: ‘dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus’. Devolver ao povo os impostos, porque o povo é de Deus.

Padre André

A SUBLIME ARTE DE EDUCAR.

Nascemos animais, nos tornamos gente! Este é, no fundo, o grande papel da educação: tornar-nos humanos. Aprendemos a ser gente, através dos nossos primeiros educadores: os nossos pais. A presença deles é imprescindível para o bom desenvolvimento do filho. Para isso, faz-se necessário o sublime equilíbrio entre firmeza - limites e ternura - carinho. Quando existe o excesso, enaltecendo um lado e desprezando o outro, o ser humano cresce desiquilibrado. É preciso encontrar o meio termo, que ajude o educando a crescer de modo saudável. Tarefa nem sempre fácil para os pais, tendendo valorizar um aspecto, em detrimento do outro. No passado era muita firmeza e pouca ternura; hoje, a tendência é dar muito carinho, ignorando a firmeza.

Tenho insistido muito na falta de limites, sobretudo nos primeiros anos de vida, quando a criança tende a dominar os seus pais. Não é fácil dizer um não, mas ele é fundamental para que a criança aprenda o que pode e aquilo que ela não deve fazer. Muitos pais dizem sim para todos os gostos e desejos do filho, com medo de traumatiza-lo. São, no fundo, os reflexos da sua educação que foi muito pautada na dureza, nas regras, na disciplina, no rigor tantas vezes exagerado e desproporcional. Não querem então repetir o que os seus pais lhes transmitiram, mas acabam pecando pelo excesso de ternura, passando para o outro extremo, onde a criança pode tudo, só com direitos e sem deveres.

Educar é saber dizer ‘não’ na medida certa, e porque não dizer, é também dizer ‘sim’ na mesma proporção. Quando existe exagero de um lado: muito sim e por outro lado: nunca não, a criança crescerá sem saber o que é certo e o que é errado. Achará que pode tudo, e que ninguém tem autoridade sobre ela. Isso é tremendamente nocivo e trará graves consequências no futuro, pois ela não saberá administrar os muitos ‘não’ que a vida vai lhe proporcionar. Quem não aprende a gerir as frustrações desde pequeno, porque sempre muito protegido pelos pais, não suportará as decepções que naturalmente encontrará ao longo da sua vida. É impossível um mundo onde tudo converge para o seu bem. As perdas e frustrações vão surgir no decorrer da sua existência.

Os pais são os primeiros educadores, mas nem sempre eles exercem com propriedade esta sua missão. Tantas vezes, por causa de uma vida agitada e distante dos próprios filhos, falta-lhes o devido acompanhamento. A escola, então, acaba assumindo este papel, que no passado era claramente reservado aos pais. Tantos filhos chegam para a escola sem saber o que são limites. Vemos, então, crianças desrespeitosas, adolescentes agressivos, a ponto de investirem contra os professores. Em muitos casos, os próprios pais, no afã de defender seus filhos, desautorizam os professores na arte de educar. Estes confundem então amor com permissividade, ternura com desleixo, de certo modo justificando os erros dos próprios filhos.

Na sublime arte de educar, o professor exerce uma função impar na sociedade. Além da instrução, que é o primeiro grande objetivo de uma escola, os professores são chamados a impor limites, a exercer esta missão com firmeza, com critérios, normas e disciplina. Apesar de árdua e exigente esta tarefa, ela é nobre e sublime. Sua missão é educar pessoas para serem cidadãos comprometidos e responsáveis na construção de um mundo melhor. Apesar de tantos percalços na labuta diária, a sua missão é simplesmente honrosa, única e insubstituível. Parabéns neste seu dia, e continue exercendo com amor e dignidade a sublime arte de educar.
Padre André

HOMENS E MULHERES EM SAÍDA.

A história do povo de Deus no Egito, levando uma vida de escravos, mexeu no coração de Deus que escutou o clamor deste povo sofrido, explorado e escravo. Envia Moisés que os tira desta situação e os conduz até a terra prometida, onde corre leite e mel. O livro bíblico, o Êxodo (saída), retrata toda a caminhada realizada até chegar ao lugar que Deus tinha reservado para eles. No caminho, quanta dor, quanto sofrimento, quantas saudades das cebolas do Egito. Quantas vezes eles pensaram em desanimar, em voltar para trás, em largar tudo e desistir. Foram 40 anos no deserto, e no final, a grande conquista, o tão sonhado lugar escolhido por Deus e puderam então, com alegria, festejar a vitória.

A vida de cada um se parece com esta história do povo de Deus. Sair é sempre um desafio, uma necessidade, um imperativo que nos conduz para a felicidade. As pessoas acomodadas, paradas, anestesiadas, fechadas em seu próprio mundo, jamais farão a experiência da terra prometida. É preciso sair de si mesmo, do seu próprio mundo e ir ao encontro do outro, daquele que mais necessita e ser na vida dele um facho de luz e de esperança. A saída desinstala, cria novas possibilidades, mas também, quantas dores e sofrimentos.

Na Igreja, em saída, como nos pede o papa Francisco, somos chamadas a ir ao encontro daquele que se afastou, ou então, que ainda não se encontrou com Jesus. No caminho, quantos desafios, quantas incertezas e tantas vezes, a exemplo dos discípulos de Jesus, quantos ‘não’ àqueles que se dispõem a levar o evangelho do Mestre. Mas é preciso sair, se desinstalar, deixar o seu comodismo e bater na porta, mesmo sabendo das surpresas que poderão advir deste gesto. Com certeza, muitas serão positivas, acolhedoras, mas tantas outras, negativas e indiferentes.

Todos nós somos chamados a sermos discípulos missionários. No dia do nosso batismo recebemos a tríplice missão: sacerdotal, profética e real. Como sacerdotes, a nossa missão é rezar, é sermos homens e mulheres de oração. Como profetas, a nossa missão é denunciar os erros, as injustiças, as mentiras e anunciar a boa nova do Reino de Deus. Como reis, a nossa missão, a exemplo do Mestre Jesus, é colocar-se a serviço dos irmãos. A oração é o combustível da missão, pois, como se diz na gíria, ‘saco vazio não para em é’. Cristão que não reza, com o tempo perderá a força, como um carro que não consegue andar, pois acabou o combustível. Dizia São Vicente de Paulo: ‘dai-me um homem de oração e ele será capaz de tudo’. Um homem cheio do Espirito de Deus será capaz de denunciar o mal e anunciar a boa nova do Reino, a exemplo dos grandes profetas da Bíblia. Fará da sua vida, então, um serviço de doação e entrega em prol daqueles mais carentes e necessitados da sua presença.

Outubro, para nós católicos, é o mês missionário, o mês por excelência, que nos convida a sairmos de nós mesmos e vivermos o nosso compromisso batismal. A nossa realização como seres humanos e como batizados, só será plenamente possível, quando fizermos de nossa vida, uma oferta agradável a Deus e aos irmãos. Quando entendermos que a vida é saída de si mesmo, do seu próprio mundo; é entrega e doação, oferta do melhor de si mesmo para aquele que mais necessita da nossa presença; é um gastar-se, a exemplo da vela, na construção do Reino de Deus. Sair de si mesmo é o grande desafio, mas ao mesmo tempo, a plena realização do ser humano e de todo batizado.
Padre André

SÓ O AMOR!

Santo Agostinho relata nos seus escritos a preocupação de um leitor da Bíblia que dizia não compreender quase nada daquilo que lia. Ele então lhe responde dizendo que a síntese da Bíblia é o amor, e que se ele estivesse vivendo o amor, estaria compreendendo perfeitamente a Palavra de Deus. Achei esta explicação maravilhosa, porque não basta conhecer a palavra, mas é preciso vivê-la e isso quer dizer: amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo, como a si mesmo. É o resumo de toda a lei, afirma o próprio Jesus Cristo.

Na vida de um batizado, o amor também é a essência da sua ação, é a primazia em tudo aquilo que faz. ‘Ainda que eu falasse a língua dos anjos e tivesse o dom de todas as ciências’, diz São Paulo, ‘mas se não tivesse o amor, isso tudo de nada valeria’. O amor que é esse ato de sair de si mesmo e de ir ao encontro do outro, atento às suas reais necessidades. O verdadeiro amor é sempre solidário, partilha aquilo que tem e se doa em prol dos irmãos. Sem amor, a vida realmente perderia todo o seu sentido e toda a sua razão de ser.

Só pode compreender o sentido da palavra amor, aquele que sai de si mesmo e vai ao encontro daquele que necessita de sua presença. O contrário do amor é o egoísmo, o individualismo, o fechamento em si mesmo, em seu mundinho, numa atitude de indiferença com o próximo. Dói escutar alguém que assim se refere ao sofrimento alheio: ‘o problema é dele. Ainda bem que eu estou bem’. Isso demonstra que aquele ser tem um coração carregado pela falta de amor, voltado somente para o seu mundo e aquilo que lhe interessa.

O verdadeiro amor é desinteressado, não procura levar vantagens e nem tem interesses naquilo que faz em prol do outro. Esses dias atrás alguém me deu um abraço e me disse: ‘este abraço é de graça’. E eu lhe respondi: ‘se não fosse de graça, eu não aceitaria’. Achei o gesto da pessoa maravilhoso, de alguém que compreendeu que o amor é gratuito, espontâneo, e não espera nada em troca. Quando alguém faz um ato de caridade esperando retorno, já deixou de ser gratuito e, portanto, perdeu a essência daquilo que é o amor. Uma jornalista, ao ver Madre Tereza de Calcutá cuidando com tanto carinho um leproso, ela lhe disse: ‘eu não faria isso nem por um milhão de dólares’. E Madre Tereza lhe respondeu: ‘nem eu, pois faço com o amor, e o amor é gratuito’.

Precisamos resgatar o verdadeiro amor, num mundo tão marcado e carregado por interesses, por vantagens pessoais. Parece que tudo aquilo que se faz precisa de uma recompensa, seja ela material ou emocional. A gratuidade precisa ser resgatada, através de atos voluntários, de pequenos gestos de carinho, de ajuda, de ternura, como expressões de um coração onde brota o verdadeiro amor. Esse negócio que vemos por ai, tipo assim ‘tudo por dinheiro’ ou coisas parecidas, é um verdadeiro câncer contra os valores do evangelho.

Só o amor pode transformar o mundo, a realidade familiar, comunitária e social. O verdadeiro amor pregado por Jesus Cristo significa doação, entrega, mesmo que isso custe sacrifício. Fazer o bem, simplesmente porque isso brota do coração, não importa para quem, é a essência da nossa vida. Só o amor nos traz a verdadeira felicidade, pois não nos amarra a ninguém, não nos obriga a nada e nos deixa plenamente livres. Quando fazemos algo com amor e por amor, do nosso coração explode a verdadeira felicidade. Desejo, que no final de nossa vida, as únicas marcas sejam aquelas deixadas pelo amor semeado entre os irmãos.
Padre André