PARÓQUIA SANTA CÂNDIDA 

Mensagens do Pároco



SUBIR A MONTANHA E REZAR!

Jesus tomou consigo alguns discípulos e subiu a montanha para rezar. Enquanto rezava, seu rosto ficou transfigurado e as vestes ficaram plenamente brancas. Durante a oração, no meio das nuvens surgem Elias e Moisés e ele conversa com eles. Os discípulos, pelo contrário, dormiam. De repente eles se acordam, e vendo aquela cena maravilhosa, Pedro sugere que se façam três tendas: uma para Elias, outra para Moisés e outra para o próprio Jesus. Enquanto ele falava, a nuvem desapareceu, e eles voltaram à realidade. Jesus pede então que não contem nada para ninguém, até que ele ressuscite dos mortos.

Jesus, sempre antes de tomar grandes decisões na vida, ele se retira para rezar. É no encontro com Deus, aberto à sua vontade, que ele orienta toda a sua existência. Nesta cena da transfiguração, num momento de êxtase, num clima de profunda oração, ele se encontra com Moisés e Elias, os dois grandes personagens do AT. Moisés significa a lei e Elias, os profetas. No diálogo com eles, Deus vai revelando ao mundo o seu Filho amado como aquele que veio falar em seu nome. No momento em que eles desaparecem, começa o Reinado de Jesus Cristo. Ele supera Moisés e Elias, e é a partir de então, o revelador do plano do Pai para o mundo. Mas isto só se realizará plenamente passando pelo sofrimento com a morte na cruz, para ressuscitar depois, vivo e glorioso. É por isso que pede aos discípulos que não contem nada a ninguém de tudo aquilo que experimentaram, mas somente quando o Filho de Deus ressuscitar dos mortos.

Após esta experiência, onde ele antecipa a glória, Jesus desce a montanha e continua a sua missão aqui na terra. Aquele encontro com Deus incute nele uma força capaz de enfrentar todas as barreiras e adversidades que o esperam pela frente. Ele vai sofrer, mas vai ressuscitar glorioso, vencedor das trevas para mostrar ao mundo que a força da vida é mais forte do que a força da morte. E isto realmente aconteceu, pois, logo após a ressurreição de Jesus, eles vão se lembrar desta cena vivenciada no monte Tabor.

Assim como Jesus, a nossa vida é também marcada por grandes decisões. Para que elas sejam tomadas de modo profundo e nos possam deixar em paz, faz-se necessário retirar-se, silenciar e rezar. A oração ilumina a nossa vida e nos orienta para aquele caminho que Deus desde sempre traçou para cada um de nós. Não tenhamos dúvidas que a oração é capaz de fazer nas pessoas coisas extraordinárias. São Vicente de Paulo dizia: ‘dai-me um homem de oração e ele será capaz de tudo’. É claro, não podemos passar a vida inteira rezando e não fazendo nada para que a situação e a vida melhorem. Como Jesus, nós devemos subir a montanha para rezar e encher-se de Deus, mas depois, descer a montanha para enfrentar os grandes desafios da nossa existência.

Toda vez que participamos da santa missa, nós estamos subindo a montanha; quando rezamos no silêncio do quarto; quando rezamos o terço e nos afastamos da correria do dia a dia; fazemos a novena e participamos da via sacra, são momentos privilegiados de subir a montanha. Se o homem deixa de subir a montanha para rezar e encontrar em Deus luz e forças para a sua caminhada, com certeza, facilmente sucumbirá diante das dificuldades cotidianas. Pelo contrário, quando ele permite ser guiado pelo Espirito de Deus, deixar a voz de Deus falar em sua vida, saberá enfrentar os grandes desafios da sua vida. Precisamos subir continuamente a montanha e rezar. Seremos fortes e Deus será o nosso amparo e sustento.

Padre André Marmilicz

“VÓS SOIS TODOS IRMÃOS” (Mt 23,8)

Nascemos iguais, filhos do mesmo Pai e com o mesmo objetivo: sermos felizes. Não importa se somos brancos ou negros, pobres ou ricos, europeus ou africanos, todos temos a mesma dignidade diante do nosso Criador, Deus Pai. Ninguém é maior do que ninguém; ninguém tem mais direitos do que ninguém; ninguém pode se sentir dono de ninguém. A igualdade nos torna irmãos, lutando juntos por um mundo melhor, onde reine o amor, a paz, a justiça e a misericórdia. Viemos sem nada a este mundo e um dia voltaremos sem nada para a eternidade, esta é a grande verdade. Mas se a lógica é esta, porque existem tantas diferenças, tantas desigualdades, tanta intolerância entre os seres humanos?

A Campanha da Fraternidade de 2018, que se iniciou na quarta-feira de cinzas e vai até o domingo de Ramos, reflete sobre a Superação da Violência e tem como lema: ‘Vós sois todos irmãos’ (Mt 23,8). Através do texto base, procura entender as causas da violência, que não nos torna iguais e nem irmãos. Na primeira parte, quando fala do VER, ou seja, as causas da violência, nos mostra que ela é cultural, institucional e direta. Tem sua origem na história, desde quando o ser humano se conhece por gente, e tem também como causa, a desigualdade econômica e as políticas públicas que não levam em consideração os mais carentes e necessitados. Na segunda parte, procura JULGAR, ou seja, analisar esta realidade à luz do Antigo Testamento, do Novo Testamento e do Magistério da Igreja. Quer mostrar que a criação é perfeita, e no final Deus viu que tudo era bom. Os profetas denunciam a opressão e anunciam a paz e a justiça. Jesus também ensina o amor e a misericórdia, nos deixa a sua paz e perdoa os seus inimigos. O magistério da Igreja, sobretudo através do documento Vaticano II, fala da cultura do diálogo. O papa Paulo VI cria em 1968 o dia mundial da paz e em Assis, no ano de 2002, os chefes do mundo inteiro criam o decálogo da paz. Podemos ver que tudo converge para a paz. E por fim, diante da realidade tão violenta, de tanto racismo, preconceito, intolerância, o texto base nos apresenta no AGIR, algumas ações concretas para a superação da violência. Ações no âmbito pessoal e da família; no âmbito pastoral; na comunidade e na sociedade. O texto base é bastante rico e esclarecedor, tendo como principal objetivo, construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da conciliação e da justiça.

Como cristãos ou homens e mulheres de boa vontade, somos chamados a sermos construtores da paz, contra todo tipo de violência, seja consigo mesmo, com o outro, na família, na comunidade ou na sociedade. Somos todos irmãos, e seguindo o exemplo de Jesus, que veio para trazer a paz, nos comprometemos a defendermos os direitos de todos os cidadãos, na busca de um mundo mais irmãos. As realidades de violência que nos cercam são tantas. Vivemos num mundo de tanta insegurança. Nas cidades grandes, o medo está estampado no rosto das pessoas. A intolerância, o preconceito, o ódio por quem pensa diferente, está muito impregnado no coração das pessoas. Que fazer diante deste quadro, desta situação tão caótica e deprimente? Não podemos ser tão ingênuos de pensar que a solução seja fácil e mágica. A violência sempre acompanhou os povos durante toda a história. Sempre existiu nas sociedades, nas comunidades e na família. Talvez não em tamanha proporção como nos tempos atuais. No entanto, diante da impotência de tão grande problemática, não podemos ficar indiferentes e dizer que isso não tem nada a ver comigo. Cada gesto de amor, de acolhida, de respeito ao diferente, de ternura, de misericórdia poderá fazer toda a diferença. Sejamos, cada um de nós, construtores da paz e do amor.

Padre André Marmilicz

MARCAS DO QUE SE FOI!

Na medida em que os anos avançam, me pergunto sobre o verdadeiro sentido da nossa vida. Um dia viemos a esta terra, sem que alguém nos perguntasse se queríamos vir. Simplesmente viemos. Não escolhemos os pais, a família e nem o nosso nome. Tudo isso foi nos dado gratuitamente, sem nenhum mérito nosso. Talvez tivemos a graça de termos nascido num berço amoroso, com todas nossas necessidades sendo satisfeitas; ou então, sofremos a falta de amor, e até de uma boa alimentação. Enfim, naquele momento da vida não podíamos fazer absolutamente nada. Éramos dependentes dos nossos pais e de nossos educadores. O tempo passou e na medida em que fomos crescendo, pudemos pensar por nós mesmos e tomar as nossas decisões. Afinal, ninguém permanece para sempre dependente do berço materno. Lá pelas tantas precisa amadurecer e tomar um rumo na sua vida. Não pode continuar eternamente uma criança, mas deverá tomar decisões em vista da sua felicidade.

O tempo passa, esta é a verdade. E no decorrer da nossa vida, vamos fazendo algumas escolhas, às quais julgamos serem as melhores naquele momento da nossa existência. Com certeza, nós vamos perguntando sobre a nossa importância neste mundo. Acreditamos que somos importantes e podemos ajudar o mundo a ser melhor. Nós nos empenhamos então naquilo que está ao nosso alcance, com o sincero objetivo de sermos necessários e fazermos a diferença naquilo que realizamos. Quando jovens, colocamos as nossas melhores energias na construção de um mundo mais humano e mais habitável. E por mais que façamos a diferença, chega uma hora em que começamos a perceber que outras pessoas ocupam os nossos lugares, e que nós, aos poucos, vamos saindo desta realidade, tão envolvente, e vai se descortinando em nossa vida uma dimensão totalmente nova e desconhecida, que vai surgindo em nossa frente. Que misteriosa esta nossa vida!

Diante desta realidade, deveríamos nos perguntar diariamente: o que estou deixando de bom para as futuras gerações? Qual o meu legado? O mundo será melhor porque eu estou passando por ele? A nossa vida só tem sentido quando colocada a serviço de um mundo melhor. Afinal, passamos por esta realidade terrena, e mesmo que não queiramos admitir, a nossa passagem é breve. Os dias passam rapidamente, e quando vemos, envelhecemos e não podemos mais voltar para trás. As pessoas egoístas, voltadas somente para si mesmas, para suas vantagens próprias, para sua riqueza pessoal, certamente, nunca farão a experiência da gratuidade, da alegria de servir e de oferecer o seu melhor sem esperar nada em troca.

Com o tempo, vamos deixando marcas na história. São elas que vão determinando quem somos e para aquilo que cremos ter vindo a este planeta terra. Somos responsáveis pela nossa conduta e pelo modo como conduzimos a nossa existência. Oxalá, tenhamos aprendido e nos empenhado em sermos sal da terra e luz do mundo. Em sermos bons e deixarmos apenas marcas de amor por onde passarmos. O que fizemos ou deixamos de fazer, são as marcas que vão caracterizar aquilo que somos e aquilo que acreditamos.

Tudo passa, e passa rapidamente, mas o amor permanece para sempre. Ele, sim, é eterno, porque, após esta vida, poderemos desfrutar plenamente do amor de Deus. Esta é a minha crença, esta é a minha fé. O amor semeado neste mundo será semente de esperança para aqueles que vierem depois de nós. Para nós, será o coroamento de uma vida, vivida em prol do outro. Como Paulo, poderemos afirmar: ’combati o bom combate. Mereço a coroa da glória’.

Padre André Marmilicz

LIVRES PARA SERVIR!

A história da cura da sogra de Pedro, que estava com febre, nos apresenta uma realidade muito presente em todas as ações libertadoras realizadas pelo Mestre. Imediatamente após a cura, ela se põe em pé e começa a servir. Isto acontece em praticamente todas as ações curadoras, realizadas por Jesus. Após ser curado, o até então doente física ou emocionalmente, se dispõe a segui-lo. Isto nos quer dizer que quando Jesus liberta as pessoas de todos os tipos de males, quer despertar no curado o desejo de servir. Quem está livre, quem não tem nenhuma doença, tem como missão, ajudar o outro, se colocar aberto e disposto a socorrer àquele que necessita do seu auxílio.

A verdadeira liberdade interior nos move em direção ao outro, com o desejo sincero de ser uma luz no seu caminho. Quem está livre, não consegue ficar fechado em seu mundo, e se põe em movimento, pronto para amar. O amor, entendido na ótica cristão, não é apenas um sentimento, mas sim, um comportamento, um modo de agir. O simples sentimento é momentâneo, passageiro, interesseiro, e assim que ele se desfaz, existe um distanciamento das verdadeiras necessidades do outro. Pelo contrário, quando se entende o verbo amar, brota de dentro do ser humano um compromisso diário de ajudar quem mais precisa, com a única intenção de fazer o bem. Somente livres de nossos interesses pessoais, de nossos egos, do nosso individualismo, de sermos o centro, seremos capazes de amar de modo desinteressado. Somente assim sentiremos o prazer de fazer o bem, não importa para quem. As nossas energias devem ser canalizadas para a construção de um mundo melhor.

Quando nos dispomos a fazer da nossa vida uma entrega por uma causa, por um projeto, que tem como centro a felicidade do nosso irmão, encontramos então, o sentido profundo da nossa existência. Quem pensa somente em si mesmo, nas suas próprias vantagens, nos seus interesses pessoais, demonstra estar amarrado por dentro, doente, amargurado, preso, carente de elogios e de demonstrações de afeto. Seguidamente encontramos pessoas que deixam a missão, se revoltam contra os outros, alegando ter feito todo o possível para ajudar na comunidade, mas ninguém reconhece o seu trabalho. Percebe-se nestas pessoas a falta da gratuidade, porque quem faz as coisas de modo espontâneo, sem esperar recompensa, demonstra alegria na missão.

Todos nós precisamos de uma conversão diária, que nos torne livres para amar. Que nos cure desta necessidade quase que doentia de sermos sempre elogiados, de sermos valorizados e bem falados pelos outros. Que nos transforme por dentro e nos torne pessoas saudáveis, porque livres para ajudar, sem esperar nada em troca. Jesus cura, liberta e salva, e quando alguém realmente se converte para ele, muda o seu jeito de ser e de viver. Quando alguém diz que se converteu para Jesus, mas continua apenas pensando em si mesmo, nos seus benefícios próprios, não entendeu absolutamente nada do que significa seguir Jesus.

Jesus foi um homem plenamente livre, e tudo o que ele fazia, tinha como objetivo, ajudar o próximo, sobretudo, aquele mais pobre e mais carente. Nunca fez nada pensando na sua glória, ou para se colocar em evidência, mas fez da sua vida uma entrega, uma doação, e como maior prova deste amor, morreu na cruz para nos salvar. Este jeito de ser do mestre, livre para amar, nos convida a encontrarmos o verdadeiro sentido da nossa existência, a colocarmos a nossa vida a serviço do outro. Grandes e imortais são os que doam sua vida pelo irmão.
Padre André Marmilicz

ELE ENSINAVA COM AUTORIDADE!

Falar com autoridade significa em primeiro lugar coerência de vida, integridade, acreditar naquilo que se faz e viver aquilo que se prega. Assim era Jesus, um homem profundamente coerente, capaz de arrastar multidões por causa do seu jeito de ser, profundamente preocupado com o bem do ser humano. A verdade é que as pessoas percebiam que em Jesus havia apenas um interesse: a felicidade das pessoas. Em nenhum momento ele agiu com má fé, pensando na sua fama, no seu sucesso ou no seu reconhecimento pessoal. Pelo contrário, quando tentaram fazer dele um rei, se indignou voltando-se para a multidão, apresentando as condições para o seguimento a ele: ‘se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz a cada dia e siga-me’.

Jesus foi um homem profundamente apaixonado pelo ser humano, preocupado com a sua plena felicidade. Demonstrava uma preferência com aqueles mais sofredores, pobres e excluídos da sua sociedade. Eles eram seus preferidos, porque não tinham ninguém que se preocupasse com eles. Abandonados pela sociedade, excluídos do meio social, eles eram amados e preferidos por Jesus. Ele mesmo disse: ‘eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância’. Esta era a grande preocupação de Jesus, porque para ele todos eram importantes, porque filhos do mesmo. Ele veio para restituir a dignidade para todos, porque esta era a vontade do seu Pai.

A sua vida era um exemplo a ser seguido. Um líder que falava e que pregava a partir daquilo que vivia em primeiro lugar. Ninguém conseguia pegá-lo em nenhuma incoerência, pois a sua vida era um livro aberto. Falava abertamente a verdade, sem ocultar qual era o caminho a ser seguido. Nunca usou de meias verdades e nem demonstrava nada que pudesse crer que fazia algo pensando em vantagens próprias. Pelo contrário, seu desejo profundo era ver todos felizes, sobretudo, os mais fracos, pobres e excluídos. Vibrava de alegria quando fazia o bem e através de suas palavras, alguém era resgatado para uma vida mais plena. Ali está a grande diferença deste homem com todos aqueles do seu tempo, especialmente os chefes religiosos e políticos. Enquanto estes faziam tudo visando seus próprios interesses, Jesus pensava e agia única e exclusivamente em prol da felicidade do outro.

Ele ensinava com autoridade e de dentro de si saia uma força extraordinária, capaz de expulsar demônios e curar a pessoas de diversas enfermidades. Até os espíritos maus se calavam e o obedeciam. Os próprios doutores da lei acabaram reconhecendo, mesmo a contragosto, que nunca ninguém falou como este homem. Ele falava com propriedade, livre de todas as amarras externas, porque ele era um homem totalmente livre por dentro. Agia a partir das suas crenças em profunda sintonia com o seu Pai. Ele mesmo disse: eu e o Pai somos um, e o que eu falo e faço, é por vontade do meu Pai.

Hoje, mais do que nunca, o mundo precisa voltar-se para este grande modelo. Os homens são todos frágeis e limitados, fracos e incoerentes. São poucos os modelos, as referências neste mundo atual. Tanto na política, como na religião, percebe-se uma ação pautada em interesses pessoais. Este homem, Jesus de Nazaré, agiu sempre de modo livre e espontâneo, pensando somente no bem e na felicidade daqueles que estavam ao seu redor. Ensinar com autoridade, a exemplo dele, é buscar viver uma vida coerente, íntegra, voltada para as necessidades dos irmãos. Ele, sim, falava e ensina com autoridade.
Padre André Marmilicz

PROFETA DO REINO DE DEUS.

Logo após o seu batismo, Jesus começou a sua missão, que consistia em anunciar o Reino de Deus. Esta é a grande novidade trazida por Jesus: cumpriu-se o tempo, convertam-se, o Reino de Deus está próximo e começa então sua grande tarefa de anuncia-la aos homens e mulheres de boa vontade. Por onde ele passa, ele fala do Reino, através de suas palavras, gestos e ações, ele apresenta ao mundo o que ele significa. Seu jeito de ser amoroso, terno, cheio de amor e de misericórdia, é o sinal do Reino de Deus. Não mais a figura de um Deus vingativo, que faz acepção de pessoas; que agracia os bons e destrói os maus, como pregado até então pelos chefes religiosos, mas um Deus que ama a todos e vai ao encontro daqueles mais precisam, porque abandonados e excluídos da sociedade.

Jesus é um apaixonado pelo Reino de Deus, e esta paixão passa pelo profundo amor aos homens, sobretudo, àqueles que viviam na sua época, como ovelhas sem pastor. Ele é um profeta itinerante, que vai de aldeia em aldeia, anunciando a boa noticia do Reino de Deus. Ele não se fixa em Cafarnaum, mas visita os povoados vizinhos, sempre falando do grande amor de Deus para com todos. Através de parábolas, histórias simples, ele vai encantando as multidões por onde ele passa. Todos percebem nele um homem profundamente interessado no bem, na dignidade do ser humano. Nele não há falsidade e nem mentira; não existe nenhum interesse, porque o que rege e dirige a sua vida e a sua missão, é o amor, a gratuidade, o desejo sincero e profundo de resgatar a dignidade de todo ser humano.

Por onde ele passa, as pessoas ficam encantadas com as suas palavras, porque aquilo que ele fala, ele vive e pratica. Contrariamente aos fariseus e aos chefes religiosos e políticos da época, que colocavam enormes fardos sob as costas do povo, ele diz: ‘vinde a mim vós que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei, porque o meu jugo é leve e o meu fardo é suave’. Tanto amor, tamanha preocupação com os abandonados e sofredores, fez dele o profeta da esperança. Surgiu entre eles alguém diferente, que falava com autoridade, e não como os mestres da lei. Falar com autoridade significa viver aquilo que se prega e dar o exemplo, ser testemunha que atrai por aquilo que é e por aquilo que pratica. Contrário disso é a hipocrisia, tão presente nos chefes religiosos, que falavam uma coisa e viviam bem outra.

Jesus se encanta com a proposta do Reino de Deus e por onde ele passa, transforma as pessoas, cura os doentes, expulsa os demônios, desperta nas pessoas a esperança de um novo Reino, de uma nova realidade. Ele é realmente diferente de todos os que vieram antes dele, porque ele simplesmente está interessado no bem das pessoas. Tudo o que ele faz é visando a plena libertação do ser humano, feito na gratuidade. Que homem fascinante, encantador, atraente, contagioso, sempre aberto às necessidades do sofredor; um coração enorme, cheio de amor e de atitudes amorosas e transformadoras.

Seguindo o exemplo deste grande homem, o profeta da esperança, o profeta do Reino de Deus, nós, os seus seguidores, somos chamados a sermos sinais do Reino. A nossa vida deve espelhar este grande amor de Deus por cada ser humano. Nossas atitudes devem exalar o perfume da acolhida, do interesse no bem do outro, a sermos profetas da alegria e da esperança. O mundo de hoje anda carente de homens e mulheres compassivos, misericordiosos e acolhedores. Tantos e tantas andam pelo mundo como ovelhas sem pastor. Sejamos nós, neste mundo, como Jesus, os profetas da alegria, os profetas do Reino de Deus.

Padre André Marmilicz

O BATISMO DE JESUS E O NOSSO BATISMO.

No dia em que Jesus foi batizado por João Batista no rio Jordão, o céu se abriu e do alto dos céus ouviu-se uma voz que dizia: ‘este é o meu filho amado em quem coloco toda a minha complacência; escutai-o’. A partir deste momento, Jesus sai da sua vida silenciosa, desconhecida, e começa a anunciar a boa nova do Reino. Literalmente, ele inicia a sua missão neste mundo, como filho de Deus, que veio para revelar o rosto misericordioso do Pai. Causa perplexidade nos moradores de Nazaré, especialmente nos parentes, o fato de que Jesus muda radicalmente sua postura diante do mundo. Na mente dele, ele continua sendo o filho de José, o carpinteiro, e de Maria, a dona de casa. No entanto, ele se transforma, e sua vida já não pertence mais aos seus pais, mas é colocado a serviço da transformação da humanidade. Suas palavras, seus gestos e suas ações, vão simplesmente revolucionar o jeito de ser dos homens até então. Começa uma nova realidade, um novo reino, como ele mesmo disse: ‘o Reino de Deus está entre vós. Cumpriu-se aquilo que vocês acabaram de ouvir’, disse, referindo-se às palavras do profeta Isaías.

O batismo de Jesus é emblemático, porque inicia uma nova história em sua vida. Ele já não será mais o mesmo, pois, a partir de então, toda a sua vida é colocada a serviço de uma missão que simplesmente transformará toda a humanidade. Nunca ninguém falou como este homem; nunca ninguém amou como ele; nunca ninguém fez tanto bem, sem pensar absolutamente em si mesmo; o mundo já não será mais o mesmo, tanto assim, que o tempo é dividido em antes e depois de Jesus. Que transformação radical no curso da história! Um homem que veio para resgatar a verdadeira identidade do ser humano, indo especialmente ao encontro dos mais necessitados, carentes, abandonados e excluídos da sua sociedade. Através de suas palavras e seus gestos, ele deu vida ao verdadeiro projeto de Deus, de amor e misericórdia, totalmente esquecido e abandonado pelas autoridades civis e religiosas do seu tempo. Ele não veio para falar em causa própria, mas toda a sua vida foi colocada a serviço da construção do reino do seu Pai, o Reino de Deus.

Assim como o batismo transformou completamente a vida de Jesus, também o nosso batismo nos faz filhos de Deus, membros de uma comunidade a serviço de uma missão. O batismo nos faz pessoas novas, renovadas, criadas para sermos, a exemplo do mestre, construtores do Reino de Deus. Infelizmente, poucos compreendem esta dimensão do batismo, e para muitos, ele não passa apenas de um rito. Ou então, de uma tradição que vem de gerações, como se a falta do mesmo, pudesse criar doenças, sapinhos ou mal olhados na criança. Batiza então, para evitar qualquer desgraça na vida do filho, e não com a consciência de educa-lo para que seja sal e luz na Igreja e na sociedade.

Precisamos retomar o verdadeiro sentido do batismo, que nos torna criaturas novas, criadas por Deus para ajudarmos a este mundo ser melhor, mais à imagem do Criador. O batizado deveria ser no mundo um sinal de uma nova realidade, e suas palavras e seus gestos, a exemplo de Jesus, deveriam ser de transformação e de amor aos irmãos. O verdadeiro batizado coloca a sua vida a serviço da sociedade, para ajudar o mundo a ser mais humano, mais justo, mais irmão. Através de gestos concretos, se dispõe a oferecer o seu melhor para a construção do Reino de Deus. Desejo que você renove o seu batismo todos os dias da sua vida, despertando em você o compromisso de amor, de doação e de entrega total aos irmãos.

Padre André Marmilicz

A MANIFESTAÇÃO DA LUZ.

Os magos sempre desfrutaram de muita popularidade. Desde 150 anos depois do nascimento de Jesus, nos cemitérios cristãos começa a ser reproduzida a sua imagem. Mas os cristãos queriam saber mais detalhes da vida deles. No contexto popular, se diz que são reis, que eram três, um da África, um da Ásia e um da Europa e um era branco, outro amarelo e outro negro e os seus nomes seriam Gaspar, Melquior e Baltazar.

Guiados pela estrela, tinham-se encontrado no mesmo ponto e depois teriam percorrido juntos o último trecho que os levaria até Belém. Tinham viajado no lombo de camelos e dromedários. Regressando cada um para sua terra, tendo atingido a respeitável idade de 120 anos, certo dia viram novamente a estrela, partiram e se encontraram numa cidade da Anatólia para celebrar a missa de Natal; no mesmo dia, repletos de alegria, morreram. Suas relíquias deram a volta ao mundo e hoje se encontram na catedral de Colônia, na Alemanha.

Claro, são apenas histórias deste fato que marcou profundamente os cristãos dos primeiros séculos. Antes de tudo, os magos não eram reis. Com relação à estrela, acreditava-se na antiguidade, que, quando nascia uma pessoa destinada a uma grande missão, ao mesmo tempo surgia uma estrela no céu. Esta estrela era o próprio Messias. Apresentando-nos os magos do Oriente que veem a estrela, o evangelista quer nos dizer que finalmente chegou o esperado libertador da estirpe de Jacó. É aquele Jesus que os magos reconheceram e adoraram. É ele a estrela.

Mateus vê no episódio dos magos a realização da profecia: guiados pela luz do Messias, os povos pagãos se dirigem para Jerusalém para levar seus dons: ouro, incenso e mirra. A estrela é Jesus, que ilumina todos os homens. Os magos representam os homens do mundo inteiro que se deixam guiar pela mensagem de paz e de amor de Cristo. Eles são a figura da Igreja, formada por povos de todas as raças, tribos, línguas e nações. Fazer parte da Igreja não quer dizer renunciar a própria identidade, não quer dizer submeter-se a uma injusta e falsa uniformidade. Jesus é a estrela que guia todos os povos.

A festa tradicional dos três reis, como ainda é conhecida no meio popular, e que na verdade não eram reis, mas sim, magos, é a grande festa da manifestação da luz. Guiados pela estrela, eles encontram o menino Jesus, envolto em faixas, e reconhecem nele o Menino Deus, enviado para o mundo a fim de salvar a humanidade. Alegres, voltam para sua terra, dando glórias a Deus. Esta estrela que os guia, é o próprio Jesus que veio ao mundo para guiar todos os povos no caminho do bem, da vida, da esperança, através de suas palavras, gestos e ações.

Hoje, nós cristãos, somos chamados a sermos sinais desta luz em nossas próprias vidas. Quando acolhemos Jesus em nosso coração, ao mesmo tempo nós nos dispomos a manifestarmos esta luz aos homens, através do nosso jeito de ser e de viver. Percebemos um verdadeiro cristão através do seu exemplo, que transmite paz, esperança, vida e coragem para o mundo. Se isto não acontece na vida de um cristão, é porque ele ainda não se deixou ser guiado por esta estrela em sua própria existência. Quando brilha dentro de nós esta estrela que se chama Jesus; quando a sua luz invade o nosso interior, ela transforma a nossa vida, renova o nosso jeito de ser e nos torna seres melhores, mais justos, fraternos e mais humanos. Somos nós, os cristãos, chamados a sermos esta diferença que queremos no mundo. Este é o grande significado desta festa que se chama Epifania – a Manifestação da Luz. Desejo que esta luz que se chama Jesus brilhe intensamente em você todos os dias de sua vida.

Padre André Marmilicz

A ESPERANÇA QUE RENASCE.

Como que num toque de mágica, o ano novo desperta em cada um de nós, a sensação de que as coisas vão melhorar; que nada será mais do que jeito que foi até então; que a situação material finalmente será equilibrada; que a relação na família tomará um novo rumo e novos ares; que os amigos serão mais valorizados; que haverá mais paz e harmonia em toda a terra; que novos tempos surgirão, mudando nosso jeito de ser, de viver e de se relacionar com o mundo e com as pessoas. É incrível, mas o ano novo tem este charme, este tom, este colorido tão especial, por vezes inexplicável. E como é bom voltar a acreditar, a esperar, a cultivar a certeza de que dias melhores nos esperam pela frente.
Tempo de avaliar aquilo que ficou para trás, no bem e no mal. O que foi bom, a tendência é que seja melhor ainda; o que foi ruim, a esperança é de que seja diferente no ano que se inicia. E se não fosse assim, certamente o ser humano perderia facilmente o seu brilho, o seu encanto e a vida tornar-se-ia tão rotineira, chata, fria e vazia. É algo simplesmente espetacular poder renovar a alegria, o entusiasmo, o otimismo de que tudo poderá ser melhor, e nada mais será do jeito que já foi um dia. É maravilhoso este olhar que gera vida nova, que nos desperta da letargia e nos possibilita novos tempos e novos dias.
Que bom nós termos esta possibilidade anual de nos revermos interiormente, de nos munirmos de novos projetos e de alimentarmos novos sonhos. Isso reanima a nossa existência e nos faz crer que um mundo diferente ainda é possível. Nós nos saudamos, abraçamos, e desejamos um ano próspero e que tudo se realize no ano que vai começar. É fantástico tudo isso, como se fosse uma criança apenas nascida, com tudo pela frente e com todas as possibilidades de realização plena. É assim que nós nos sentimos e é assim que nós nos comunicamos com os outros. É bom demais poder viver a experiência de um novo ano, descortinando tantas possibilidades e tantas realizações no cotidiano da nossa existência.
Sorria para o ano que está começando, na certeza de que ele poderá ser o melhor da sua vida. Afinal, tantas coisas dependem de você, do modo como você decidir se posicionar nos bons e maus momentos. Claro, tanta coisa estará fora do seu alcance, e você simplesmente sentir-se-á impotente e incapaz de mudar o rumo da história. No entanto, tanta coisa dependerá exclusivamente de você e isto você não poderá delegar aos outros. Assuma então o controle da sua vida, como a causa e não como consequência. Seja proativo, dirigindo o rumo da sua vida e não reativo, colocando a culpa encima dos outros. Saber-se senhor da própria história, ajudará você a responder por suas palavras e por suas ações.
Encare os desafios que serão muitos ao longo do ano, de modo otimista, positivo na certeza de que existe solução para todos os problemas. Busque saídas conscientes em vez de reclamar, chorar ou desanimar. O jeito que você enfrentar os problemas e adversidades, fará toda a diferença. E isto sim, depende de você. Você tem o poder de atrair as coisas boas ou más, dando o colorido que você conscientemente escolher. Sonho com um mundo onde cada um sinta-se responsável pelos seus atos, pelos seus gestos e por suas palavras. Um mundo feito de otimismo, coragem e de esperança. Um mundo feito de irmãos que se ajudam, respeitando as diferenças que existem e que são naturais. Um mundo onde o diálogo aproxima as pessoas e une os corações. Um mundo onde todos tenham condições de viver dignamente. Sei que sonho demais, mas o que seria da vida se não existissem os sonhos? Feliz 2018.

Padre Andre Marmilicz

NATAL, A FESTA CRISTÃ.

Logo após a ressurreição de Jesus e ascensão aos céus, os primeiros cristãos se reuniam todos os domingos para a partilha do pão, partilha da palavra, e para praticar a caridade com aqueles mais necessitados. Como eles não podiam manifestar a sua fé em público, porque o cristianismo era proibido e perseguido pelo império romano, eles se reuniam nas casas dos próprios cristãos. Dali nasce a Igreja Doméstica. Mais tarde, a partir do edito de Milão no ano de 313, sob o governo de Constantino, filho de santa Helena, que tinha muita simpatia para com os cristãos, o cristianismo torna-se público e mais tarde, religião oficial do império romano. Como se vê, ainda não existia a festa do natal, que viria logo em seguida, no próprio século IV, tendo a sua origem no paganismo.

Os pagãos, desde os tempos bem remotos se preparavam para a festa do ‘nascimento do sol’. Esta festa era celebrada no Egito no dia 6 de janeiro e em Roma no dia 25 de dezembro. Os pagãos estavam convencidos de que o Sol era um deus e por esta razão faziam uma festa para comemorar o seu nascimento. Era uma oportunidade na qual se divertiam, comiam e bebiam até se embriagarem, permitindo-se outras coisas que é melhor não contar.

Quando, por volta de 350 d.C. os cristãos se tornaram numerosos, até mesmo mais do que os pagãos, o que decidiram eles? Mudaram o nome e o sentido da festa do ‘nascimento do Sol’. Estabeleceram esse dia para a celebração do nascimento de Jesus, pois, - assim pensavam – Ele é o verdadeiro Sol, a luz que ilumina todos os homens. E foi assim que estabeleceram o natal, o nascimento de Jesus, no Ocidente no dia 25 de dezembro e no Oriente no dia 06 de janeiro. E assim continua até os dias de hoje.

Natal, portanto, é uma festa cristã, que recorda o nascimento do Menino Jesus, que veio para salvar a humanidade. Para celebrar tamanha festa, nasce mais tarde o Advento, em torno do ano 600, com quatro semanas de preparação. O espirito que emana deste período é essencialmente religioso, onde se renova a fé, a esperança e a caridade. Para um cristão, o natal só tem sentido, se vivido a partir dos valores do evangelho. Do contrário, ele assume um jeito pagão de ser, onde o mais importante é o material, a festa, com carnes e bebidas. Não que isso não seja importante, mas não é o essencial.

Natal é tempo de paz. Esta é a melhor definição sobre o seu verdadeiro significado. Uma paz que brota do interior, fruto do perdão e da reconciliação. Quem é incapaz de perdoar, certamente não fará a experiência do natal. Natal é a festa da família reunida, onde todos partilham a vida, a esperança e o amor. Geralmente os filhos voltam para a casa de seus pais, a fim de celebrarem a alegria do encontro. Natal é a festa da luz, e por isso encontramos tantas casas iluminadas, com pisca-pisca, luzes coloridas, simbolizando a verdadeira luz: Jesus Cristo, a luz da humanidade.

Viver o espirito natalino é encher-se de um amor verdadeiro, que vai ao encontro do outro, e num abraço, desfaz todos os ranços e mágoas guardados no coração. Vamos todos ao presépio contentes para contemplarmos o menino recém nascido numa manjedoura. É ele a razão de tanta alegria, que veio para iluminar os povos, anunciar o Reino de Deus, falar de um tempo novo e espalhar pelo mundo a esperança de dias melhores. Que este Natal seja para você e sua família, um tempo de paz, de reconciliação e de muito amor. Feliz Natal.

Padre André Marmilicz

TESTEMUNHAS DA LUZ.

TESTEMUNHAS DA LUZ.

Só pode dar testemunho de algo, quem viu e experimentou o fato. Do contrário, suas palavras tornam-se no mínimo duvidosas, mesmo que apresentadas com uma bela retórica, em tom persuasivo e convincente. É fácil falar de modo envolvente, mesmo quando aquilo que se prega, não passa apenas de palavras vazias de vivência. Acompanhamos tantos exemplos de pessoas que falam cheias de entusiasmo, como se tudo aquilo fosse realmente vivido por elas, mas que depois, demonstram uma enorme incoerência entre a fala e a vivência. Como diz um velho ditado: ‘palavras comovem, mas exemplos arrastam’.

João Batista tem plena consciência de que ele é apenas uma testemunha da luz, mas não é a luz. Isto já é muito significativo, e é exatamente por este seu jeito de ser, que ele atrai tantas pessoas para escutá-lo. Longe de se achar a luz, ele prepara o caminho para que venha a única luz que pode brilhar e iluminar a humanidade: Jesus Cristo. Mas isto não tira a importância decisiva do Batista, como o precursor, como aquele que vem antes da luz, exatamente para abrir os corações das pessoas a fim de acolher a luz. O seu testemunho encanta aqueles que vão ao se encontro, a ponto de acharem que ele é o Messias, o esperado. Ciente da sua missão, ele se coloca no seu lugar, como aquele que foi enviado por Deus para preparar a chegada do Salvador.

Jesus Cristo é a luz da humanidade. É ele que veio para brilhar, e mostrar através de suas palavras, gestos e ações o verdadeiro rosto do Pai. Um Pai amoroso, misericordioso, e cheio de ternura para com todos os seus filhos, especialmente com os mais pobres e abandonados. Tudo o que ele fez foi apenas amar e resgatar a dignidade de todos, como filhos e filhas, criados à imagem e semelhança de Deus. Todo rosto desfigurado, é sinal de que o Reino do Pai ainda não aconteceu na sua plenitude.

No entanto, este Jesus se manifesta ao mundo nos dias de hoje, através dos seus seguidores. Nós somos chamados a darmos testemunho desta luz, que se chama Jesus. Mas só pode testemunhar quem realmente procura viver a sua mensagem, a sua boa nova, o seu evangelho. Do contrário, serão apenas palavras jogadas ao vento. Testemunhar a luz quer dizer, buscar viver de acordo com aquilo que o Mestre ensinou e fez durante a sua vida. Em outras palavras, é fazer a experiência do encontro com Jesus Cristo. São Paulo viveu tão intensamente esta verdade, a ponto de dizer: ‘já não mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim’. E mais: ‘o meu viver é Cristo, o resto é lixo’.

Mais do que mestres, o mundo de hoje precisa de testemunhas. Palavras podem ser comoventes, mas aquilo que atrai e que encanta, que aproxima, é a vivência daquilo que se prega. Quando falamos bonito, mas em seguida desdizemos a nossa fala através de atitudes contrárias àquilo que proclamamos, perdemos a força e o crédito. A comunicação tem três grandes dimensões: em primeiro lugar, comunicamos através daquilo que falamos; em segundo lugar, através daquilo que fazemos e em terceiro lugar, através daquilo que somos. E com certeza, nada tem tanta força e atração, do que a comunicação que reflete aquilo que somos e que vivemos e testemunhamos. Seguindo o exemplo do Batista, sejamos testemunhas desta luz, que se chama Jesus, a fim de apresentarmos ao mundo a única verdade que realmente vale a pena ser seguida, Cristo, o caminho, a verdade e a vida. E isso só será possível, se vivermos e testemunharmos o que pregamos, através de palavras, gestos e ações.


Padre André Marmilicz

PREPARAI O CAMINHO PARA O SENHOR.

João Batista foi escolhido por Deus para ser esta voz que grita no deserto, pedindo a conversão, porque o Messias, o Salvador está chegando. Muitos vão até ele, para escutá-lo e colocam-se abertos para a mudança, para uma vida nova, a fim de viverem plenamente a chegada do Filho de Deus. Com voz forte, por vezes dura e até ríspida, usando roupas simples e rústicas, ele prega e anuncia a chegada do Senhor. Desperta tanta curiosidade e encanto em muitos, a ponto de acharem que ele seria o Messias esperado. E ele responde dizendo que não é digno nem de desamarrar a correia das suas sandálias. Ele tem plena consciência da sua grande missão, como aquele que prepara o caminho, mas que não é o caminho.

Seguindo o exemplo deste grande profeta, hoje nós somos chamados a preparar o caminho para a chegada do Salvador. Como todos os anos, novamente ele está chegando para transformar as nossas vidas e ser uma luz em nossa caminhada. Como cristãos, o nosso modo de preparar-nos para o Natal, é muito diferente daqueles que não acreditam em Deus. Para aqueles, este período assume um tom mais material, com cara de papai Noel, muito mais preocupados com as vendas do que com o coração. Natal bom para estes, é aquele que vende bem, não importando se houve ou não mudança na vida das pessoas.

Preparar o caminho para a vinda do Senhor é também, a exemplo do Batista, ir para o deserto e deixar-se moldar interiormente. Deserto é o lugar do encontro com Deus, do silêncio, da conversa com o divino, numa atitude de abertura e de conversão. O bom cristão é aquele que se pergunta no que deve ser melhor, o que deve mudar em sua vida, o que fará para ajudar o mundo a ser irmão. Por vezes, dada a indiferença dos cristãos com o sofrimento do outro, parece que não encontramos diferença entre quem crê e quem não crê em Deus.

Muito mais do que meramente práticas religiosas, ritos e usanças, o cristão se prepara para o Natal, abrindo o seu coração a uma transformação interior. Isto se dá através do silêncio onde a oração atinge o seu ápice, mas que não se fecha apenas em gestos externos, mas se faz perceber num amor intenso para com aquele que mais necessita. A mudança de vida requer este gesto de caridade, de ajuda, de preocupação com aquele que sofre, seja material ou espiritualmente. No terceiro domingo do advento, os cristãos são convidados, através de um gesto concreto, ajudar na campanha da evangelização. Este dinheiro arrecadado irá para lugares onde a missão tem dificuldades de acontecer, por falta de recursos materiais.

Preparar a vinda do Salvador, é sair da indiferença, do comodismo, do individualismo, do egoísmo, de pensar somente em si mesmo e nas suas vantagens, para colocar-se aberto às necessidades do irmão. Pode ser uma cesta básica, uma oferta generosa em prol da evangelização, ou então, uma visita a um asilo, a um lugar onde se encontram irmãos abandonados e excluídos da sociedade. Requer então uma transformação interior que se manifesta numa ação social.

Talvez, como nunca em outros tempos, dado o agito exterior, a correria desenfreada, a preocupação exagerada com os problemas do dia a dia, precisamos ir para o deserto. E isto quer dizer silenciar, parar, rezar, deixar-se moldar pelo amor de Deus. Uma oração quando vivida de modo profundo e verdadeiro, nos levará ao outro, ao mais necessitado, como gesto de amor, carinho, ternura e solidariedade. Preparai o caminho do Senhor. Ele está chegando.

Padre André Marmilicz

VIGIAI!

O escritor polonês, sociólogo, Zigmund Bauman define esta sociedade atual como líquida, onde tudo se dissolve facilmente e nada permanece sólido e consistente. A grande preocupação do homem pós-moderno, segundo este autor, é com o momento presente, com o aqui, o agora, o já, sem grandes preocupações com o futuro. É preciso desfrutar ao máximo o momento atual, seja no mundo das relações pessoais, assim como na relação com as coisas materiais. É um mundo hedonista e profundamente pragmático, onde é importante aquilo que é útil no momento, mesmo que facilmente descartável. Até no mundo relacional, esta máxima aparece de modo selvagem, ou seja, uso o outro para satisfazer-me momentaneamente e logo em seguida o descarto, e jogo fora.

Este modo de ser e agir do ser humano criou dentro dele um enorme vazio, a falta de sentido e significado de uma existência mais comprometida e pautada por ideais. Se fossemos pedir para um jovem desenvolver um projeto de vida, certamente encontraríamos na maioria deles um ideal muito limitado, capaz de ser resumido em poucas palavras, e todo ele fixado no prazer imediato e na satisfação momentânea. Não é raro encontrarmos jovens totalmente indiferentes com aquilo que poderá advir no seu futuro. Isso é realmente preocupante, colocando em risco o compromisso por um mundo melhor, mais justo e mais humano.

Dentro deste cenário, podemos ser levados por um desânimo coletivo, por uma letargia e falta de empenho, como se este mundo não tivesse mais solução. Este é, com certeza, o perigo que envolve as nossas mentes, tantas vezes descrentes de uma sociedade melhor. E talvez por isso, a indiferença torna-se a marca de tantos que navegam de modo frio e distante no meio desta sociedade. Aqui e acolá surgem os profetas da desgraça, semeando nos corações humanos, uma descrença na possibilidade de mundo mais habitável e confiável para as futuras gerações. As noticias que falam de tragédia, de desgraça, de destruição, parece que ocupam o espaço da comunicação e são elas que mais atraem o público de modo geral. Falar de esperança neste contexto é causa de riso e de deboche.

No entanto, para nós cristãos, a esperança deveria ser a marca registrada. O Deus da vida veio ao mundo, para trazer a todos a certeza de que as coisas podem ser diferentes. O papa Francisco nos convoca a sermos profetas da esperança, a lutarmos contra a corrente, desafiando os profetas da desgraça, que semeiam cizânia e desespero nos corações humanos. A sermos sinais de um mundo melhor, através de pequenos gestos de amor, de solidariedade e de fraternidade. Contra o mau humor e todo este desencanto que acompanha tantas pessoas privas de fé e de esperança.

Tempo de advento é este período em que a esperança se renova, porque o menino Deus vem novamente despertar em cada um de nós a certeza de que podemos construir um mundo melhor. Mesmo que cercados por valores passageiros, líquidos, a vinda do Salvador nos remete a princípios sólidos, perenes e eternos. Devemos acreditar nisso, e isto significa, vigiar para não nos deixarmos levar pela onda que assola a nossa humanidade. Os princípios evangélicos permanecem como a luz que deve guiar nossos passos, no caminho que conduz para a verdadeira felicidade. Por mais que o mundo tente abafar a presença da luz, que se chama Jesus sejamos nós sinais da sua presença, vivenciando aquilo que o Menino Deus semeou neste mundo, através de suas palavras, gestos e ações.

Padre André Marmilicz

EU VIM PARA SERVIR!

O maior homem da história da humanidade, Jesus de Nazaré, nos ensinou que a razão de nossa passagem neste mundo é servir aos irmãos. Ele mesmo afirma: ‘eu vim para servir e não para ser servido’. Toda sua vida foi uma prova desta grande sua afirmação, através de suas palavras, gestos e ações. Foi uma vida plenamente dedicada em prol do outro, de modo especial, do outro mais pobre, carente, necessitado e excluído da sociedade do seu tempo. Prova de amor maior não há, do que dar a vida pelos irmãos, é isto que nos ensina o homem de Nazaré.

Quem ama, serve e se doa e se entrega e se sacrifica pelo próximo. O verdadeiro amor não se fecha em si mesmo, em suas próprias vontades, mas se abre às necessidades do outro. Deixa o seu ‘eu’ em segundo plano, para dedicar-se ao irmão que está ao seu lado. Quando alguém faz tudo pensando em si mesmo, jamais compreenderá a lição deixada pelo mestre dos mestres. A oração, quando voltada somente para responder às suas próprias dores, sofrimentos, com certeza é ouvida por Deus, mas aquela que lhe agrada de verdade é a súplica em prol do irmão que sofre e do abandonado, do pobre e marginalizado.

Servir não é apenas uma possibilidade para aquele que segue o Filho de Deus, é simplesmente uma condição inerente à sua missão neste mundo. Quem não entender e não viver esta máxima, não terá entendido os ditames propostos por Jesus no evangelho. É contraditório para alguém dizer que ama a Jesus, fechando-se em si mesmo, no seu próprio mundo, ou pior ainda, desejando o mal ao próximo. Quem encontra Jesus em sua vida, naturalmente entendeu que o encontro com ele o leva a amar mais intensamente o próximo, a dedicar-lhe o tempo necessário, sempre pensando no seu bem e na sua felicidade.

A plena realização do ser humano neste mundo passa naturalmente pelo serviço alegre e gratuito em prol daquela pessoa mais sofrida e mais carente. Quando provamos a alegria do serviço, do bem em prol do nosso irmão, descobrimos então o verdadeiro sentido da nossa existência. O próprio Jesus vai afirmar no evangelho, que depois de termos feito tudo, só nos resta dizer: ‘fomos servos inúteis; fizemos apenas o que deveríamos ter feito’. Inútil neste contexto não quer dizer imprestável, desnecessário, mas alguém que descobriu que a condição para a sua felicidade é servir e não ser servido. São Paulo vai enaltecer esta verdade, quando proclama que ‘há muito mais alegria em dar do que em receber’.

Na medida em que eu faço o bem, sem importar para quem, percebo que o primeiro a ganhar com isso, sou eu mesmo. Como é bom ajudar alguém a ser melhor, a ser mais gente, mesmo que seja através de um sorriso, de um abraço, de um olhar ou de uma palavra de conforto. Não é quantidade de coisas que vai demonstrar o nosso amor ou ternura para com o outro, mas sim, a qualidade, ou seja, o modo como fazemos aquilo que fazemos. Podemos fazer muitas coisas, mas com interesse, vanglória, o que certamente não nos realiza na nossa missão. Mas quando fazemos na gratuidade, com alegria de coração, o gesto, ou o ato em si, já é a recompensa da nossa ação.

Passe pela vida deixando marcas de amor por onde você passar. Servir é a razão da nossa existência, e é isto que nos tornará plenamente
felizes e realizados neste mundo. Que a mão direita não saiba o que a esquerda fez, como disse o próprio Jesus no evangelho.

Padre André Marmilicz

DEUS CAPACITA OS ESCOLHIDOS.

Tenho comigo esta convicção, de que Deus nos criou para sermos felizes e nos realizarmos plenamente como seres humanos. Para tanto, ele confiou a cada um de nós uma série de talentos, de dons, de potencialidades. Somos diferentes, com possibilidades diferenciadas, e isso torna o mundo melhor. Seria muito chato viver num mundo onde todos fossem iguais, tivessem os mesmos gostos, as mesmas aptidões, os mesmos dons e as mesmas capacidades. Graças ao bom Deus somos diferentes, e o diferente, longe de ser um problema, é algo que cria alternativas saudáveis na construção de um mundo melhor. Alguém que sabe aquilo que eu não sei, que tem facilidade para aquilo que eu não tenho, que gosta de algo que eu não gosto, realmente, é uma dádiva de Deus para a humanidade.

Jesus, numa de suas belas histórias, conta a história dos talentos. Um senhor viajou para longe e confiou cinco talentos para um empregado, dois para outro e um para o terceiro. Quando voltou, pediu contas dos talentos confiados aos empregados. O que recebeu cinco rendeu outros cinco; o que recebeu dois rendeu outros dois e o que recebeu um rendeu nada, porque enterrou o talento por medo do patrão. Este então elogiou o primeiro e lhe confiou outros talentos e o mesmo aconteceu com o segundo. Com o terceiro, pelo contrário, pediu que lhe fosse tirado este talento e entregue a quem tinha mais. Além disso, ficou muito revoltado com aquele que escondeu o seu talento e mandou que fosse jogado no fogo do inferno. A sua ira se manifestou de modo quase que desproporcional.

Este empregado é cada um de nós, a quem Deus confiou uma série de dons e talentos, e pediu que desenvolvêssemos para colocarmos a serviço da comunidade. Em nome da humildade, muitos negam os valores que têm se colocam numa atitude de coitados, e tantas vezes, chamando aqueles que os colocam a serviço dos outros, como pessoas que fazem isso apenas para aparecer-se. Triste constatação, mas é em tantos lugares a pura verdade. Negam o que são e ainda criticam aqueles que se doam pela comunidade.

Todos nós fomos agraciados por Deus com uma série de potencialidades, e devemos fazer de tudo para desenvolvê-las, oferecendo o melhor na construção do Reino de Deus. Tem uma frase que resume isso no meio católico: ‘Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos’. Através de diversos modos podemos desenvolver os dons que Deus nos concedeu, colocando todo o nosso potencial na construção de um mundo melhor. Todos nós temos uma missão a cumprir neste planeta, e se nós não a realizarmos, ficará um vazio. Ninguém pode fazer a parte que me cabe, pois ela foi confiada a mim e deve ser desenvolvida por mim.

Encanto-me pela juventude que se abre à ação de Deus em suas vidas, colocando o melhor que existe nelas, a serviço da construção de uma sociedade mais fraterna. Como é bom ver jovens animados, entusiasmados pelo evangelho de Jesus Cristo. São vibrantes, entusiasmados, cheios de sonhos e de ideais. Vale para eles aquela máxima: ‘aqui tem jovem, aqui tem fogo’. É triste ver tantos jovens perdidos nas drogas, no mundo do vício, fechados em seu próprio mundo, sem projetos para a sua vida. Vivem como se não vivessem e isso causa neles uma tristeza imensa e um vazio muito grande. Quando colocam o melhor da sua juventude para a comunidade, se vê neles um brilho, um encanto, uma alegria pela vida. É isto que Jesus pede aos jovens e a cada um de nós: desenvolver os nossos talentos, e coloca-los a serviço da Igreja e de uma sociedade mais humana, fraterna e justa.

Padre André Marmilicz

A SUBLIME ARTE DE VIVER.

O cotidiano de nossa vida é feito de tantos momentos agradáveis, especiais, inesquecíveis, de rosas e flores, mas também, de situações adversas, sofridas, dolorosas, espinhos e agruras. Saber viver é realmente uma arte, nem sempre tão fácil de ser compreendida devido às inúmeras situações inesperadas que a vida nos reserva. Talvez fomos educados para o sucesso, como se tudo aquilo que quiséssemos, surgisse em nossa frente como que num toque de mágica. E na verdade, não é bem assim. As realidades frustrantes, decepcionantes, são também parte integrante da nossa existência. E como enfrenta-las? Como dar a volta por cima frente a realidades adversas, como uma doença, a perda de um emprego, a separação, a morte de alguém muito amado, as dívidas impagáveis? São apenas algumas das situações difíceis que surgem de modo inesperado em nossa vida.

Não existe uma fórmula mágica para resolver as situações conflitantes da nossa vida. E a resposta depende da nossa atitude pessoal, embora muitos queiram transferir a sua responsabilidade para Jesus, como se ele fosse um mágico. Fico indignado com frases como esta: ‘coloque tudo nas mãos de Jesus e ele vai resolver o seu problema’. Que ledo engano, pois ele mesmo sempre afirma, após uma cura, ‘a tua fé te salvou’. Ele deixa claro que a ação humana é fundamental para que um problema seja resolvido. Tantos deixam de fazer a sua parte, creditando tudo a Jesus, e quando o problema não se resolve, acham que ele os abandonou. Já ouvi frases como essa: ‘quanto mais rezo, pior fica’. É verdade, quando não nos ajudamos, Deus não pode fazer nada.

Quando eu estudava teologia, aprendi uma frase que para sempre me acompanha ao longo da minha vida: ‘ a graça pressupõe a natureza’. Ou seja, a ação divina, necessita da ajuda humana. Jesus não foi um milagreiro que resolvia os problemas de todo mundo, pelo contrário, ele sempre colocou em ação a responsabilidade humana na solução de um problema. Um grande professor, nos meus tempos de Roma, costumava dizer: ‘Deus faz sempre o seu 100%; nós, nem sempre’. Ou seja, a solução de um problema chama em causa o nosso esforço, a nossa determinação, como dizia São Vicente de Paulo, ‘com a força dos braços e o suor do rosto’.

Deus nos deu algo que nos diferencia dos animais: a capacidade de pensar, analisar, refletir e buscar a solução dos problemas. Esse é o nosso grande diferencial, que nem sempre usamos de modo correto e adequado. A nossa mente é um fator determinante na condução correta de nossa vida, e quando ela é ativada, buscamos pensar antes de tomar qualquer decisão. Quando somos movidos puramente pela emoção, acabamos tomando decisões conturbadas, desintegradas e que podem nos conduzir ao precipício. A emoção dissociada da razão costuma criar dramas desnecessários, brigas infindáveis, situações tantas vezes irreversíveis. Percebo que damos muita razão para a emoção, como se ela fosse o fator determinante da nossa existência. Ela tem, sim, seu grande papel, mas ela deve obedecer as indicações oferecidas pela razão, do contrário, ela poderá criar um verdadeiro caos.

Na sublime arte de viver, somos eternos aprendizes. Diariamente nos deparamos com situações que pedem de nós uma resposta adequada e equilibrada. Nem sempre conseguimos administrar de modo saudável a nossa vida. Ela pede sabedoria e isso quer dizer, usar a nossa mente, e não sermos levados apenas pela emoção. Este equilíbrio é fundamental.

Padre André Marmilicz

SAUDADES ETERNAS.

SAUDADES ETERNAS.

Saudade é um sentimento profundo que existe e se manifesta por aquelas pessoas que queremos bem, que amamos e que se encontram distante dos nossos olhos. Pode ser uma distância momentânea e que será plenamente superada quando tivermos a alegria e o prazer de nos reencontrarmos. É tão bom ouvirmos, no meio de um abraço sincero, palavras como estas: ‘que saudades de você’; ‘que falta que você faz’; ‘volte logo’; ‘não demore tanto tempo para nos visitar’. Essa manifestação carinhosa preenche o nosso ser e eleva a nossa alma. É prova de amor, de carinho, de um bem querer que brota de dentro e nos faz um bem enorme. Precisamos destes momentos, destas provas, porque elas nos renovam interiormente e nos fazem perceber a nossa importância neste mundo. Como é bom saber que alguém tem saudades de você; como é bom sentir saudades de alguém.

No entanto, existem pessoas queridas, amadas, que nunca mais poderemos tocar, abraçar, conversar, trocar algumas ideias, porque partiram desta vida. Dói imensamente saber que nunca mais poderemos sentir a sua presença agradável, desfrutar do seu sorriso, do seu abraço e da sua companhia prazerosa e encantadora. Sofremos para aceitar esta dura realidade, e por vezes até sonhamos com a sua presença, mas quando acordamos, percebemos que tudo não passou de um sonho apenas. Pessoas significativas e que partiram de modo inesperado, provocado por um acidente, uma tragédia, um ataque fulminante, dificilmente sairão de nossa memória. Serão para sempre lembradas, com muita dor na alma, sobretudo no dia da sua morte, ou então, no dia dos finados.

O que podemos fazer por um ente querido que nos deixou para sempre, voltando para a casa do Pai? Qual o gesto amoroso que poderá ser significativo para ele? Para nós, católicos, a maior prova de amor por alguém muito querido, é a nossa oração pelo seu descanso eterno. Acreditamos na importância de rezarmos pelas almas, para que sejam purificadas de todos os pecados cometidos nesta vida, e alcancem a glória eterna. Rezar é muito importante, através de uma novena, ou mesmo, um Pai Nosso ou uma Ave Maria todos os dias de nossa vida. E neste dia dos finados, somos convidados a participar da missa e colocar a intenção pelo nosso ente querido. Além disso, visita-lo no cemitério e levar flores, como sinal de amor e de carinho. Isso não vai preencher o vazio que sentimos pela sua ausência, mas vai amenizar um pouco a dor da perda e da separação.

As saudades de alguém que nos deixou, são eternas, porque nunca mais nesta vida poderemos desfrutar da sua presença. Sabemos que um dia nos encontraremos todos juntos na casa do Pai, onde poderemos dar glórias a Deus eternamente. Diante desta realidade eminente da morte, nada melhor do que manifestar nesta vida a nossa estima e o nosso amor para com aqueles que convivem conosco, especialmente, nossos familiares. Tantas vezes perdemos a oportunidade de manifestarmos o nosso apreço para com alguém, que de repente nos deixa, e provoca em nós uma culpa irreparável.

Neste dia em que nos lembramos daqueles que nos precederam na casa do Pai, vamos expressar nosso gesto de amor e de carinho por eles, visitando-os no campo santo, levando o nosso carinho materializado em flores. Aproveitemos para expressar o amor para com aqueles que conosco convivem, porque não sabemos nem o dia e nem a hora. Estejamos preparados, tanto para aceitarmos a partida de quem amamos, ou então, a nossa volta para a casa do Pai.

Padre André Marmilicz

O AMOR, A ÚNICA LEI.

O AMOR, A ÚNICA LEI.

Os rabinos do tempo de Jesus, estudando a Bíblia, tinham chegado a compor uma lista dos mandamentos nela contidos. Ensinavam que o conjunto dos preceitos era de 613. Desses, 365 (como os dias do ano) eram proibições e 248 (como os membros do corpo), eram ações a serem cumpridas. As mulheres tinham sorte, porque eram obrigadas a observar somente as proibições. Os guias religiosos de Israel ensinavam que todos estes mandamentos tinham a mesma importância e eram igualmente obrigatórios; discutia-se, porém, qual fosse o primeiro e o maior de todos. A opinião comum era que o preceito do sábado valia mais do que todos os outros juntos. Havia também quem colocasse em primeiro lugar o amor a Deus e ao próximo, ou, somente ao próximo. Todavia, por ‘próximo’ entendia-se somente os membros do seu próprio povo.

Encontramos diversas passagens na Bíblia nas quais Jesus pratica o bem no dia do sábado, deixando os guias religiosos muito furiosos. Por vezes, parece que ele agia assim de propósito, mas com certeza, com o único objetivo de mostrar que o ser humano está acima da lei. Quando a lei não favorece a pessoa, ela não tem razão de existir. Esta era a ótica de Jesus, preocupado com o bem estar do individuo, a ponto de dizer: ‘o homem não foi feito para o sábado, mas o sábado foi feito para o homem’. Se esta lei não favorece a sua plena realização, ela deve ser abolida. Estas posições de Jesus mexiam com os fariseus e os guias religiosos, e foi uma das razões da sua condenação, acusando-o de ser um infrator da lei.

A grande preocupação de Jesus é com a realização plena e a felicidade de cada pessoa. Para ele, a justiça e a misericórdia estão acima do sacrifício, de toda forma de cumprimento da lei pela lei, simplesmente porque está escrito no papel. Não é que ele condene a doutrina, as normas, os preceitos, os sacrifícios, mas se elas não levarem ao amor, sobretudo, para com aqueles mais frágeis e necessitados, elas não tem razão de existir. Jesus é um apaixonado pelo ser humano, e quer que ele viva plenamente. Quando existe uma lei que o sufoca, que o limita na sua liberdade, na sua plena realização, ele tira a sua força e a sua validade. A lei pela lei, que não ajuda no crescimento da pessoa, não tem razão de existir.

Existe somente uma lei, para a qual Jesus dedica todo o tempo da sua vida, a defende de corpo e alma: o amor a Deus e o amor aos irmãos. O amor é a base de tudo, é a lei que resume tudo. Podemos fazer tudo, dizia São Paulo, falar línguas, conhecer todas as ciências, mas se não tivermos amor, somos como um címbalo que toca. Ou seja, estamos vazios do sentido e da razão profunda da nossa existência. O amor, entendido como caridade, como doação, como entrega, e não apenas como um sentimento passageiro.

Nós amamos a Deus quando nos mantemos numa religiosa escuta da sua Palavra e vivemos como ele indica. Os momentos de oração se destinam a dar alguma coisa para Deus, mas para manter-nos na disposição de cumprir a sua vontade. Para amar a Deus é preciso prestar atenção e ter disponibilidade para responder em quaisquer circunstâncias às necessidades do irmão. Isto é mais importante do que o cumprimento de qualquer lei. Podemos amar a Deus, somente quando amamos o homem, o nosso irmão. Quem diz que ama a Deus e odeia o seu irmão, é um mentiroso, afirmava o próprio Jesus. Se cumprirmos todas as leis da Igreja, todos os seus preceitos, mas não amarmos o nosso irmão, não teremos entendido aquilo que é a essência de toda lei: o amor a Deus e o amor aos irmãos.

Padre André Marmilicz.
Padre André

A DEUS O QUE É DE DEUS.

A DEUS O QUE É DE DEUS.

Com a intenção clara de pegar Jesus em alguma contradição, a fim de condená-lo, os discípulos dos fariseus lhe fazem uma pergunta muito provocativa: ‘é lícito pagar o tributo a Cesar ou não?’ Se Jesus respondesse que sim, ele estaria indo contra o povo, já tão cansado e explorado pelos altos impostos pagos ao império romano; se dissesse que não, iria contra Cesar, considerado um deus pelo poder que exerce, e isto poderia lhe causar a condenação. De uma maneira muito inteligente, Jesus responde: ‘dai a Cesar o que de Cesar e a Deus o que é de Deus’. A princípio nós podemos imaginar que com isso Jesus quis dividir os dois poderes: de um lado o poder politico e social e de outro, o poder religioso. Como se a religião tivesse que permanecer dentro do templo, fechada entre quatro paredes, e a politica tivesse que decidir como melhor lhe conviesse, a questão social. Nada mais errado na interpretação daquilo que Jesus responde para os discípulos dos fariseus.

Jesus não nega a necessidade de pagar os impostos. Ele sabe perfeitamente que são eles que movem os povos e todos os sistemas políticos. Sem imposto é impossível que haja melhorias para o povo. E é exatamente ali que está o nó da questão. Dar a Cesar é não negar o imposto, mas dar a Deus o que é de Deus é não escravizar e explorar aquilo que é o mais sagrado para ele: o ser humano, sobretudo os mais pobres e necessitados. Em outras palavras, o imposto não pode ser usado para dominar, mas deve ser devolvido em prol do povo. E isto não acontecia no tempo de Jesus. O povo pagava impostos altos para Cesar, ou seja, para a manutenção do império romano, mas era totalmente explorado, sem direitos e sem as mínimas condições de uma vida digna. Jesus, com esta resposta, se coloca totalmente contra a exploração, o uso de modo indevido do imposto pago pelo pobre povo de Israel.

A realidade de hoje não é diferente daquela vivida no tempo de Jesus. Também no mundo atual, todos os cidadãos pagam altos impostos para manter a máquina estatal. Ninguém é contra o pagamento das taxas, o problema é que elas são demasiado altas, e geralmente, não retornam para o bem do povo. Se uma empresa sonega os impostos, ou se algum cidadão também não declara a sua renda, é passível de multa e até de prisão. Mas é triste constatar que estes encargos tão altos, são desviados para interesses da máquina estatal e são usados de modo indevido e arbitrário por aqueles que governam o nosso país.

Dar a Deus o que é de Deus, é devolver de modo honesto para o seu povo, para as pessoas criadas à sua imagem e semelhança, os impostos pagos com tanto sacrifício. Ou seja, é preocupar-se com o bem estar do povo de Deus, através de uma saúde de qualidade, de uma educação gratuita para todos, da construção de estradas, enfim, atender às necessidades básicas do cidadão. Quando alguém é explorado, o próprio Deus sofre porque cada um de nós é seu filho. E como um bom pai, ele quer o bem dos seus filhos e quer a sua plena felicidade.

Nós não podemos aceitar tanta exploração, tanto desvio, tanta corrupção no meio do nosso país. O imposto é licito, é necessário, mas o que não é admissível o mau uso dele por aqueles que governam o nosso país. Falta saúde para o nosso povo; aquilo que é do governo anda quebrado e sucateado, não por falta de verbas, mas porque elas são desviadas para interesses que não são aqueles do povo. Falta educação e o básico para as escolas públicas do nosso país. Por isso é que nós, a exemplo de Jesus, queremos afirmar: ‘dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus’. Devolver ao povo os impostos, porque o povo é de Deus.

Padre André

A SUBLIME ARTE DE EDUCAR.

Nascemos animais, nos tornamos gente! Este é, no fundo, o grande papel da educação: tornar-nos humanos. Aprendemos a ser gente, através dos nossos primeiros educadores: os nossos pais. A presença deles é imprescindível para o bom desenvolvimento do filho. Para isso, faz-se necessário o sublime equilíbrio entre firmeza - limites e ternura - carinho. Quando existe o excesso, enaltecendo um lado e desprezando o outro, o ser humano cresce desiquilibrado. É preciso encontrar o meio termo, que ajude o educando a crescer de modo saudável. Tarefa nem sempre fácil para os pais, tendendo valorizar um aspecto, em detrimento do outro. No passado era muita firmeza e pouca ternura; hoje, a tendência é dar muito carinho, ignorando a firmeza.

Tenho insistido muito na falta de limites, sobretudo nos primeiros anos de vida, quando a criança tende a dominar os seus pais. Não é fácil dizer um não, mas ele é fundamental para que a criança aprenda o que pode e aquilo que ela não deve fazer. Muitos pais dizem sim para todos os gostos e desejos do filho, com medo de traumatiza-lo. São, no fundo, os reflexos da sua educação que foi muito pautada na dureza, nas regras, na disciplina, no rigor tantas vezes exagerado e desproporcional. Não querem então repetir o que os seus pais lhes transmitiram, mas acabam pecando pelo excesso de ternura, passando para o outro extremo, onde a criança pode tudo, só com direitos e sem deveres.

Educar é saber dizer ‘não’ na medida certa, e porque não dizer, é também dizer ‘sim’ na mesma proporção. Quando existe exagero de um lado: muito sim e por outro lado: nunca não, a criança crescerá sem saber o que é certo e o que é errado. Achará que pode tudo, e que ninguém tem autoridade sobre ela. Isso é tremendamente nocivo e trará graves consequências no futuro, pois ela não saberá administrar os muitos ‘não’ que a vida vai lhe proporcionar. Quem não aprende a gerir as frustrações desde pequeno, porque sempre muito protegido pelos pais, não suportará as decepções que naturalmente encontrará ao longo da sua vida. É impossível um mundo onde tudo converge para o seu bem. As perdas e frustrações vão surgir no decorrer da sua existência.

Os pais são os primeiros educadores, mas nem sempre eles exercem com propriedade esta sua missão. Tantas vezes, por causa de uma vida agitada e distante dos próprios filhos, falta-lhes o devido acompanhamento. A escola, então, acaba assumindo este papel, que no passado era claramente reservado aos pais. Tantos filhos chegam para a escola sem saber o que são limites. Vemos, então, crianças desrespeitosas, adolescentes agressivos, a ponto de investirem contra os professores. Em muitos casos, os próprios pais, no afã de defender seus filhos, desautorizam os professores na arte de educar. Estes confundem então amor com permissividade, ternura com desleixo, de certo modo justificando os erros dos próprios filhos.

Na sublime arte de educar, o professor exerce uma função impar na sociedade. Além da instrução, que é o primeiro grande objetivo de uma escola, os professores são chamados a impor limites, a exercer esta missão com firmeza, com critérios, normas e disciplina. Apesar de árdua e exigente esta tarefa, ela é nobre e sublime. Sua missão é educar pessoas para serem cidadãos comprometidos e responsáveis na construção de um mundo melhor. Apesar de tantos percalços na labuta diária, a sua missão é simplesmente honrosa, única e insubstituível. Parabéns neste seu dia, e continue exercendo com amor e dignidade a sublime arte de educar.
Padre André

HOMENS E MULHERES EM SAÍDA.

A história do povo de Deus no Egito, levando uma vida de escravos, mexeu no coração de Deus que escutou o clamor deste povo sofrido, explorado e escravo. Envia Moisés que os tira desta situação e os conduz até a terra prometida, onde corre leite e mel. O livro bíblico, o Êxodo (saída), retrata toda a caminhada realizada até chegar ao lugar que Deus tinha reservado para eles. No caminho, quanta dor, quanto sofrimento, quantas saudades das cebolas do Egito. Quantas vezes eles pensaram em desanimar, em voltar para trás, em largar tudo e desistir. Foram 40 anos no deserto, e no final, a grande conquista, o tão sonhado lugar escolhido por Deus e puderam então, com alegria, festejar a vitória.

A vida de cada um se parece com esta história do povo de Deus. Sair é sempre um desafio, uma necessidade, um imperativo que nos conduz para a felicidade. As pessoas acomodadas, paradas, anestesiadas, fechadas em seu próprio mundo, jamais farão a experiência da terra prometida. É preciso sair de si mesmo, do seu próprio mundo e ir ao encontro do outro, daquele que mais necessita e ser na vida dele um facho de luz e de esperança. A saída desinstala, cria novas possibilidades, mas também, quantas dores e sofrimentos.

Na Igreja, em saída, como nos pede o papa Francisco, somos chamadas a ir ao encontro daquele que se afastou, ou então, que ainda não se encontrou com Jesus. No caminho, quantos desafios, quantas incertezas e tantas vezes, a exemplo dos discípulos de Jesus, quantos ‘não’ àqueles que se dispõem a levar o evangelho do Mestre. Mas é preciso sair, se desinstalar, deixar o seu comodismo e bater na porta, mesmo sabendo das surpresas que poderão advir deste gesto. Com certeza, muitas serão positivas, acolhedoras, mas tantas outras, negativas e indiferentes.

Todos nós somos chamados a sermos discípulos missionários. No dia do nosso batismo recebemos a tríplice missão: sacerdotal, profética e real. Como sacerdotes, a nossa missão é rezar, é sermos homens e mulheres de oração. Como profetas, a nossa missão é denunciar os erros, as injustiças, as mentiras e anunciar a boa nova do Reino de Deus. Como reis, a nossa missão, a exemplo do Mestre Jesus, é colocar-se a serviço dos irmãos. A oração é o combustível da missão, pois, como se diz na gíria, ‘saco vazio não para em é’. Cristão que não reza, com o tempo perderá a força, como um carro que não consegue andar, pois acabou o combustível. Dizia São Vicente de Paulo: ‘dai-me um homem de oração e ele será capaz de tudo’. Um homem cheio do Espirito de Deus será capaz de denunciar o mal e anunciar a boa nova do Reino, a exemplo dos grandes profetas da Bíblia. Fará da sua vida, então, um serviço de doação e entrega em prol daqueles mais carentes e necessitados da sua presença.

Outubro, para nós católicos, é o mês missionário, o mês por excelência, que nos convida a sairmos de nós mesmos e vivermos o nosso compromisso batismal. A nossa realização como seres humanos e como batizados, só será plenamente possível, quando fizermos de nossa vida, uma oferta agradável a Deus e aos irmãos. Quando entendermos que a vida é saída de si mesmo, do seu próprio mundo; é entrega e doação, oferta do melhor de si mesmo para aquele que mais necessita da nossa presença; é um gastar-se, a exemplo da vela, na construção do Reino de Deus. Sair de si mesmo é o grande desafio, mas ao mesmo tempo, a plena realização do ser humano e de todo batizado.
Padre André

SÓ O AMOR!

Santo Agostinho relata nos seus escritos a preocupação de um leitor da Bíblia que dizia não compreender quase nada daquilo que lia. Ele então lhe responde dizendo que a síntese da Bíblia é o amor, e que se ele estivesse vivendo o amor, estaria compreendendo perfeitamente a Palavra de Deus. Achei esta explicação maravilhosa, porque não basta conhecer a palavra, mas é preciso vivê-la e isso quer dizer: amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo, como a si mesmo. É o resumo de toda a lei, afirma o próprio Jesus Cristo.

Na vida de um batizado, o amor também é a essência da sua ação, é a primazia em tudo aquilo que faz. ‘Ainda que eu falasse a língua dos anjos e tivesse o dom de todas as ciências’, diz São Paulo, ‘mas se não tivesse o amor, isso tudo de nada valeria’. O amor que é esse ato de sair de si mesmo e de ir ao encontro do outro, atento às suas reais necessidades. O verdadeiro amor é sempre solidário, partilha aquilo que tem e se doa em prol dos irmãos. Sem amor, a vida realmente perderia todo o seu sentido e toda a sua razão de ser.

Só pode compreender o sentido da palavra amor, aquele que sai de si mesmo e vai ao encontro daquele que necessita de sua presença. O contrário do amor é o egoísmo, o individualismo, o fechamento em si mesmo, em seu mundinho, numa atitude de indiferença com o próximo. Dói escutar alguém que assim se refere ao sofrimento alheio: ‘o problema é dele. Ainda bem que eu estou bem’. Isso demonstra que aquele ser tem um coração carregado pela falta de amor, voltado somente para o seu mundo e aquilo que lhe interessa.

O verdadeiro amor é desinteressado, não procura levar vantagens e nem tem interesses naquilo que faz em prol do outro. Esses dias atrás alguém me deu um abraço e me disse: ‘este abraço é de graça’. E eu lhe respondi: ‘se não fosse de graça, eu não aceitaria’. Achei o gesto da pessoa maravilhoso, de alguém que compreendeu que o amor é gratuito, espontâneo, e não espera nada em troca. Quando alguém faz um ato de caridade esperando retorno, já deixou de ser gratuito e, portanto, perdeu a essência daquilo que é o amor. Uma jornalista, ao ver Madre Tereza de Calcutá cuidando com tanto carinho um leproso, ela lhe disse: ‘eu não faria isso nem por um milhão de dólares’. E Madre Tereza lhe respondeu: ‘nem eu, pois faço com o amor, e o amor é gratuito’.

Precisamos resgatar o verdadeiro amor, num mundo tão marcado e carregado por interesses, por vantagens pessoais. Parece que tudo aquilo que se faz precisa de uma recompensa, seja ela material ou emocional. A gratuidade precisa ser resgatada, através de atos voluntários, de pequenos gestos de carinho, de ajuda, de ternura, como expressões de um coração onde brota o verdadeiro amor. Esse negócio que vemos por ai, tipo assim ‘tudo por dinheiro’ ou coisas parecidas, é um verdadeiro câncer contra os valores do evangelho.

Só o amor pode transformar o mundo, a realidade familiar, comunitária e social. O verdadeiro amor pregado por Jesus Cristo significa doação, entrega, mesmo que isso custe sacrifício. Fazer o bem, simplesmente porque isso brota do coração, não importa para quem, é a essência da nossa vida. Só o amor nos traz a verdadeira felicidade, pois não nos amarra a ninguém, não nos obriga a nada e nos deixa plenamente livres. Quando fazemos algo com amor e por amor, do nosso coração explode a verdadeira felicidade. Desejo, que no final de nossa vida, as únicas marcas sejam aquelas deixadas pelo amor semeado entre os irmãos.
Padre André